quarta-feira, 22 de maio de 2013

Requiem pelo menos

O antigo ministro do PSD Eduardo Catroga diz que o país não tem capacidade para suportar a actual despesa com pensões e propõe um recálculo de todas as pensões, incluindo as que já estão atribuídas: “É inevitável. Mais tarde ou mais cedo, teremos de ajustar a carga salarial e as prestações sociais ao nível de despesa que o país pode financiar”. Atenção que nem se referia ao seu próprio salário, nem a sua fórmula mágica o inclui como factor de recalculo. Os saqueadores da equipa de imunes ao sacrifício onde joga este atacante querem uma pensão mínima para todos e uma pensão tendencialmente mínima para os sobrantes, independentemente de todos os direitos adquiridos através dos descontos que tenham realizado ao longo de uma vida inteira a trabalhar e, claro está, independentemente dessa tal Constituição da República Portuguesa que, dizem as más línguas, joga à baliza na equipa contrária.
Vagamente relacionado com o assalto aos velhotes, a equipa dos salteadores tem somado vitórias consecutivas em idênticos acometimentos sobre salários e direitos laborais, ao mesmo tempo que apregoa as virtudes de um empreendedorismo capaz de fazer magnatas que apenas dependem do seu próprio arrojo para se fazerem à vida a vender pipocas ou t-shirts estampadas com o seu logótipo. A avaliar pelas palmas, o pessoal parece acreditar piamente nesta fábula da pipoca.
Ainda ontem fazia furor nas redes sociais o vídeo da resposta de um petiz, destes que “batem punho”, a uma investigadora que, num programa televisivo de grande audiência, tentou confrontá-lo com a indignidade de um salário mínimo que hoje não garante sequer a subsistência de quem trabalha um mês inteiro para o ganhar: “pelo menos não estão desempregados”. Foi o delírio. “O puto calou a doutora!” Risos.  Palmas.
Vendo bem as coisas, quem trabalha à borla, em voluntariado, pelo menos está ocupado. Quem tem que recorrer à esmola porque o seu salário não chega, pelo menos não passa tanta fome. Quem está vivo, pelo menos não está morto. Quem ganha várias vezes o salário mínimo, pelo menos não tem que saber o que é sobreviver com 485 euros por mês. E quem aplaude tudo isto, pelo menos não tem que pensar que quanto menores forem os salários, menores serão as receitas que pagarão as suas pensões de reforma, mais anos terá que trabalhar para receber uma pensão cada vez menor e maior será a parte do seu salário que lhe será confiscada para ter direito a serviços públicos cada vez piores.
Quanto mais pobres houver, menor será o consumo, menor será o emprego, menores serão os salários, menor será o produto, mais pobres haverá, menor consumo haverá, menos emprego haverá, menores salários haverá, ainda mais pobreza haverá e por aí adiante, percorrendo as portas de cada membro da claque até que todas as palmas se calem. Impossível retroceder. Um povo que aplauda a rentabilização da pobreza, em vez de repudiá-la com todas as suas forças, é um povo que está a construir uma sociedade sem valores de qualquer tipo. É um povo condenado. Somos um país livre. Cada um aplaude o que quer. O futuro virá para todos, logo a seguir a este presente das inevitabilidades evitáveis. É continuar a aplaudi-las. Ora aplaudam lá. Pelo menos aquecem as mãos.

2 comentários:

Anónimo disse...

Nem todos os burros têm 4 patas.

Filipe Tourais disse...

Claro. Com quatro no chão não há duas para bater palmas.