segunda-feira, 27 de maio de 2013

"Requalificar", ou seja, DESPEDIR


O Governo alterou a proposta de lei que cria o sistema de requalificação (que irá substituir a mobilidade especial) e prevê que os funcionários que não tenham lugar nos serviços serão despedidos e terão acesso ao subsídio de desemprego. A "requalificação", o pormenor semântico da medida, longe de ser um período de formação em que se requalificam e valorizam recursos, que por acaso até são pessoas, corresponde a uma espécie de antecâmara onde o candidato ao desemprego fica à espera da execução final durante um período indeterminado de tempo ao longo do qual irá recebendo uma remuneração  cada vez menor inversamente proporcional à contrapartida da brutalidade que lhe é ministrada em doses cada vez maiores, até ao despedimento final, até ficar sem salário. Numa palavra: humanismo. Um humanismo invertido, contrário àquele que está consagrado na nossa Constituição da República, e que fica a aguardar pela assinatura de um qualquer sindicato  daqueles que, após uma encenação cuidadosa, em nome do invariável "é melhor do que nada, sempre acabam por aceitar que os carrascos avancem sobre os trabalhadores por si representados. Passo a passo, a reconfiguração social vai fazendo o seu caminho lado a lado com a implosão económica e social do país. Tiram aos azuis, aplaudem os vermelhos, roubam aos vermelhos, aplaudem os azuis. E vai calhando a vez a todos.
 

Vagamente relacionado: O Nobel da economia Paul Krugman considera que Portugal vive um “pesadelo” económico-financeiro e questiona como será possível ultrapassar problemas estruturais “condenando ao desemprego” milhares de trabalhadores: “Não me digam que Portugal tem tido más políticas no passado e que tem profundos problemas estruturais. Claro que tem, e todos têm, mas, sendo que em Portugal a situação é mais grave do que noutros países, como é que faz sentido que se consiga lidar com estes problemas condenando ao desemprego um grande número de trabalhadores disponíveis?”, frisa Paul Krugman num artigo publicado nesta segunda-feira no seu blogue do New York Times, intitulado Consciência de Um Liberal.

1 comentário:

fb disse...

Tal como aos reformados, que descontaram uma vida inteira sobre o seu salário para assim adquirirem uma reforma proporcional a esses descontos, aos quais agora dizem, não que descontaram demais, que a reforma que auferem é demasiada, aos trabalhadores do Estado, que recrutaram no pressuposto de aceitarem auferir um salário menor do que os seus colegas do privado e, em contrapartida, terem mais estabilidade nos seus vínculos laborais, agora dizem-lhes que não pode ser, que o que lá vai, lá vai, que já não há estabilidade para ninguém e a porta da rua é serventia da casa. Começou com Sócrates eprosseguiu com Passos Coelho e Paulo Portas: o Estado deixou de ser uma pessoa de bem. E há pessoas que se dizem de bem que os aplaudem em mais este passo em frente para um buraco cada vez maior.