sexta-feira, 17 de maio de 2013

Os "consensos alargados" na cleptocracia angolana

Caso não mudem de conduta, o Governo angolano ameaça suspender dois órgãos de comunicação social desalinhados por, alegadamente, apelarem à desordem pública e à sublevação popular e pela autoria de ofensas e calúnias contra instituições do Estado e titulares de órgãos de soberania.  Os visados são a Rádio Despertar e o semanário Folha 8. A Rádio Despertar está ligada ao principal partido da oposição, a UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola). O Folha 8 é dirigido por William Tonet, jornalista, advogado e militante da Convergência Ampla de Salvação de Angola – Coligação Eleitoral (CASA-CE), uma força política criada em 2012.
Numa entrevista à Radio France International, William Tonet considerou a ameaça de suspensão um “comportamento anormal de quem não sabe conviver com a democracia”. Afirma que o comunicado não explica como apelou o jornal à desobediência e questiona se dizer que a dívida pública angolana foi mal negociada com o Governo russo ou falar da necessidade de acabar com o fosso entre muito ricos e milhões de pobres é "incitar à violência". A tomada de posição do Governo visou, disse, “os dois únicos órgãos que ainda não foram comprados”. O jornalista afirmou que o semanário que dirige “não é ligado à oposição, é ligado à democracia, à liberdade de imprensa e à liberdade de expressão”. “Ninguém da oposição põe um tostão na Folha 8.”
A Rádio Despertar e o Folha 8 têm um histórico de problemas com o poder político angolano. O conteúdo da programação da emissora foi no passado contestado pelo Governo do Presidente José Eduardo dos Santos. Um jornalista foi morto em 2010 em circunstâncias nunca esclarecidas. William Tonet já esteve detido e foi condenado por difamação, num caso de denúncias de enriquecimento ilícito de generais. Em 2012, os computadores do jornal que dirige foram confiscados pela polícia. Defensor, como advogado, de jovens que protagonizaram diversas acções de contestação ao regime, nos dois últimos anos, afirma na entrevista à RFI que se considera um “alvo a abater”. “Sinto-me perseguido e pronto a receber uma bala”, declarou também. (daqui)

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