quarta-feira, 1 de maio de 2013

O consenso deste 1º de Maio


Ontem, vésperas deste 1º de Maio, o EUROSTAT divulgou o vigésimo terceiro alerta consecutivo de aumento do desemprego na Europa. A turba de desempregados ultrapassou os 19,2 milhões na zona euro e os 26,5milhões na União Europeia, aumentando pelo vigésimo terceiro mês consecutivo. Para onde foram tantos empregos?

De quando em quando, chegam-nos notícias Desses paraísos onde o emprego cresce e a economia regista as taxas de crescimento que são o reverso da implosão europeia, sobretudo das economias daquela Europa que não conta com a exportação de maquinaria e de tecnologia para esses oásis para travar a destruição de empregos nas suas sociedades. Por estes dias, quase todos evitando associações entre os dois fenómenos, os média europeus noticiaram a derrocada de mais um edifício fabril, desta vez no Bangladesh, desta vez mais quase 600 vítimas mortais de um capitalismo que não tem qualquer pejo em enriquecer poupando nas condições mínimas de segurança que não oferece a trabalhadores que suam 11 horas diárias multiplicadas por seis dias por semana, aos quais pagam um salário mensal de vergonha de 40 euros.

Primeiro foram as vantagens do livre comércio internacional a nascer em nome de uma moralidade à escala global que, em vez de melhorar as condições de vida a quem trabalhava em países até então pouco industrializados, produziu o ambiente perfeito para que o grande capital pudesse generalizar a regra do empobrecer a trabalhar, quer deslocalizando produções para países com salários de miséria, condições de trabalho desumanas e liberdade para poluir, quer para destruir todas as pequenas e médias empresas que não os tenham querido ou podido imitar, através de uma concorrência cuja deslealdade assenta sobre os mesmos três pilares. Milhares de empresas foram encerrando em toda a Europa e Estados Unidos, milhões de empregos foram destruídos, milhões de desempregados viram-se numa situação de necessidade que os foi obrigando a aceitar salários e condições de trabalho cada vez piores. O crédito cada vez mais fácil foi substituindo os bons salários, cada vez mais difíceis de encontrar. Finalmente, fruto de opções ideológicas que não hesitam em aumentar impostos sobre salários que encolhem para deles isentar lucros e rendas que crescem e aumentam de peso na composição do rendimento total, as receitas fiscais assim encolhidas foram gerando dificuldades orçamentais nos sistemas de segurança social e no financiamento de serviços públicos.

Depois rebentou uma bolha gerada por décadas de delinquência banqueira e, com ela, a socialização de perdas de biliões de euros. Nacionalizaram-se prejuízos e mantiveram-se os proveitos nas mãos dos delinquentes responsáveis pela crise. A plutocracia europeia engendrou uma regra aparentemente absurda mas perfeita para possibilitar uma rápida recapitalização do sector financeiro, que proíbe o BCE de emprestar directamente aos Estados aos mesmos 0,5% a que dá crédito ilimitado à banca para poder especular no mercado das dívidas soberanas. Países como Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha, Itália e Chipre vêem-se sozinhos para encontrar a liquidez de que necessitam no mercado abaixo de exorbitâncias que chegam a ultrapassar os 10, os 20, os 30%.

Entram então em cena as troikas, com plenos poderes para subjugarem Estados soberanos governados por partidos que agradecem a oportunidade criada pela sua chantagem, que vende milhões a troco de juros agiotas e de uma agenda política de privatização de serviços públicos, de pulverização de direitos laborais e de generalização de salários cada vez mais mínimos para implementarem políticas de outra forma impossíveis de pôr em prática. Esta agenda utiliza os resultados catastróficos sobre a economia e o emprego que vai destruindo através de cortes orçamentais sucessivos e cada vez mais agressivos para legitimar novos cortes, ainda mais agressivos e ainda mais destruidores da economia e do emprego. A taxa de emprego em Portugal é hoje a mais baixa dos últimos 27 anos. Quanto pior, melhor. Quanto maior for o desemprego, quanto menores forem as protecções sociais, maior o desespero. Quanto maior o desespero, mais e mais pessoas aceitarão trabalhar recebendo um salário mais reduzido e com vínculos cada vez mais precários.

É neste cenário que celebramos o 1º de Maio deste ano. O Presidente da República e o Governo insistem na necessidade da obtenção de um “consenso alargado”, artificial porque profundamente anti-democrático, para prosseguirem com as suas políticas de cataclismo económico e social. De Norte a Sul de Portugal, centenas de milhar de portugueses saíram à rua neste 1º De Maio para exigirem a demissão do Governo e a convocação de eleições antecipadas. O consenso alargado que hoje existe é este. Devolvam-nos as nossas vidas. Não queremos ser mais um Bangladesh. Não queremos a restauração do regime dos anos de chumbo que o 25 de Abril derrubou. Demissão, já. Eleições, já.

5 comentários:

Gi disse...

Filipe, eu revejo-me em tudo o que diz; só não acredito que de novas eleições saia uma solução diferente.

O Filipe acredita que o eleitorado vai votar em massa no BE? Ou acha que se o BE aumentasse a votação para, digamos, 15%, o PS eventualmente maioritário teria uma iluminação e quereria coligar-se à esquerda? E se assim fosse, acredita que a política neste país mudaria?

Filipe Tourais disse...

Gi, nós temos um Parlamento que não reflecte a vontade popular. Este é o nosso ponto de partida, a legitimidade democrática que este Governo perdeu. Se as eleições mudam ou não alguma coisa, isso depende da escolha dos portugueses. Seja lá qual for essa escolha, e toda a gente está prevenida sobre quem defende quem e o quê, não percamos o respeito pela democracia, que é o mínimo dos mínimos que podemos exigir.

Gi disse...

Não digo que tenha perdido o respeito pela democracia mas, graças aos últimos quatro governos eleitos (Barroso, Sócrates x2, Passos), acho que perdi a confiança.

Filipe Tourais disse...

Não podemos perder de vista que elegemos deputados e não Governos. É da subversão deste facto e da desvalorização do trabalho parlamentar que nasce muito desalento e a respectiva abstenção. Por exemplo, muito pouca gente valoriza o facto de serem necessários 10% dos deputados para requererem a fiscalização sucessiva de um diploma legal e faz muita diferença que a esquerda tenha ou não tenha esses 10%. Depois, e relativamente à sua questão anterior, é obvio que quanto maior for a representação parlamentar do Bloco ou do PCP tanto maior será o seu poder de influenciar um eventual Governo de coligação ou até mesmo um Governo com acordos de incidência parlamentar.

Freitas disse...

Passos é o Gauleiter, é o nosso Quisling.