quarta-feira, 29 de maio de 2013

Boys, boys, boys

Já não é só o Tribunal de Contas que chumba as boas iniciativas do Governo. A Comissão de Recrutamento e Selecção para a Administração Pública (CRESAP), criada em 2012 para avaliar gestores públicos e dirigentes do Estado, chumbou dois dos gestores propostos pelo Governo para integrarem a administração da Parque Escolar, cuja gestão durante a era Sócrates, como se recordarão, tem sido objecto de recreação no universo laranja. O Público reproduz os pareceres da CRESAP sobre os dois boys propostos, um pela  Secretária de Estado dos SWAPS  e o outro por aquele Ministro que se tem batido pelo despedimento de professores no Ensino público para manter os contratos de associação com colégios privados, apesar de muitos deles funcionarem paredes meias com estabelecimentos de ensino do Estado aos quais roubam alunos, deixando professores sem componente lectiva (horário zero).

– O relatório da CRESAP explica que, no caso do chumbo a Vicente Pereira, a decisão se ficou a dever à impossibilidade de obter “evidências de uma capacidade de gestão em situações de crise”. A comissão destaca o facto de o gestor ter sido vice-presidente da CP e da Refer, com o pelouro financeiro, sendo que se detectou nestas duas empresas a utilização de swaps como forma de financiamento”. Na análise ao perfil de Vicente Pereira, que esteve na Refer em simultâneo com a secretária de Estado do Tesouro (ex-directora financeira da empresa), houve necessidade de realizar uma entrevista pessoal e um teste de competências comportamentais. O documento refere que “a personalidade em causa não deu provas de possuir traços pessoais e profissionais, nem a postura necessária ao conselho de administração da empresa em concreto, a Parque Escolar”. Numa avaliação mais detalhada às competências do gestor, a CRESAP destaca o facto de ter “um percurso profissional, sobretudo a partir de 2003, muito assente na exploração de oportunidades surgidas através da sua rede de contactos pessoais, ao invés de uma decisão pessoal subordinada a uma linha de desenvolvimento da carreira”. O relatório diz mesmo que a análise detectou uma “ausência na presença” do critério de “orientação para o cidadão e serviço de interesse público” e que “não há evidência de uma capacidade para gerir processos de complexidade elevada, lidando com resistências e obtendo resultados concretos”. O teste de competências comportamentais revelou inclusivamente que Vicente Pereira “é frequentemente intolerante com as pessoas menos dotadas” e “pode mostrar-se brusco, crítico, dominador e susceptível de desencorajar ou de causar ressentimento em pessoas com maiores motivações sociais”. O relatório refere ainda que “apresenta normas gerais de conduta que não concretizam em nada possíveis linhas orientadoras da gestão da Parque Escolar”.

– Já no caso de Nuno Rolo, antigo director de recursos humanos do Instituto Superior Técnico e que também foi chamado para uma entrevista que incluiu um teste de competências comportamentais, a CRESAP justifica o chumbo com o facto de ser “um perfil caracterizado pelo desempenho de cargos e de actividades de staff e com uma pequena experiência de quatro anos de gestão intermédia, claramente insuficiente para o exercício de cargos de topo”. No documento, lê-se que tem um percurso profissional “demasiado fragmentado (…) não sendo claro a conclusão e os resultados obtidos em cada um dos cargos exercidos, bem como a razão para essas mudanças”. A CRESAP, que diz ter recebido a 29 de Abril uma segunda versão do currículo do gestor com mais informação, destaca que “não há evidência de um gosto pelo trabalho em equipa”, mas sim uma preferência pela “auto-valorização pessoal, nomeadamente através de prestações de informações não totalmente precisas, nem claras”. A comissão detectou algumas incongruências no currículo do gestor, nomeadamente o facto de ter referido que foi “assessor jurídico do Conselho de Gestão do Instituto Superior Técnico”, quando se veio a verificar que era um dos três juristas (supervisionados por um coordenador) do gabinete jurídico da instituição. No que diz respeito à aptidão para o cargo de vogal da Parque Escolar, o relatório conclui que Nuno Rolo “não aprofunda a componente de gestão, referindo mesmo a necessidade de recorrer a advogados externos”.

Sem comentários: