domingo, 21 de abril de 2013

Olha o Burro! #9

Quem diria que, numa época marcada por um autentico assalto aos direitos laborais em toda a Europa, um pouco mais a Sul, já em África, o sofrido burro marroquino teria finalmente direitos trabalhistas, horário de trabalho, pausas para almoçar, períodos de formação, acesso a clínicas de urgência e cuidados de barbearia e dentista? Um dos animais mais maltratados em Marrocos, o burro, é alvo de piadas, brincadeiras maldosas, ataques e é um símbolo da estupidez ao ponto de, quando se pronuncia o seu nome ("hmar"), ser regra de boa educação baixar a voz e dizer "com o perdão da palavra". Existe um trecho do Corão que diz que não há no mundo som mais desagradável do que o zurro de um asno. 

Apesar deste factor cultural, responsável pelo pesado estigma que lança sobre a espécie, um empresário da colecta de lixo, Aziz Badraui, pensou em dignificar o animal e montou uma equipe de "burros operários" para recolher o lixo na Medina de Fez. A cidade antiga de Fez, a maior zona pedestre do mundo, é composta por um labirinto de ruas que sobem e descem, mudam de direcção, terminam em becos sem saída. Com excepção de algumas ruas mais largas, todas as vias da Medina são estreitas e não permitem tráfego, a não ser de motos e bicicletas. Os burros sempre foram o único meio de carga e descarga nesta cidade de 350 hectares onde passam 128 mil habitantes pelas ruas, o sol é visto em poucos momentos e os moradores conseguem tocar a parede do vizinho da frente sem sair de casa, esticando o braço através das suas próprias janelas. Por esta razão, o município de Fez impõe às empresas de lixo o uso dos burros.

Até há pouco tempo, as empresas concessionárias de limpeza que operavam na Medina simplesmente contratavam grupos de transportadores para retirar lixos. Mas Badraui, que se orgulha de ter nascido no campo e conhecer as necessidades de um asno, decidiu mudar esta tradição. A sua empresa Ozone aumentou o número de burros de 50 para 92, construiu um estábulo e só então contratou os transportadores. Para além disso,  o empresário ainda concebeu um programa de treinos destinado aos burros com a duração de uma semana: nos primeiros dias, o burro novato vai atado à garupa de um companheiro veterano e limita-se a seguir o seu percurso e aprender.  Depois, colocam a cela, mas sem carga, e por último as celas com os resíduos, sempre com o burro amarrado, até que sete dias depois já tenha memorizada a rota e aprendido a não cair.

Bom conhecedor do animal, Badraui conhece as preferências alimentares dos burros: Os restos dos vegetais do mercado central (folhas de verduras, pepinos e cenouras) são o melhor lanche, de forma que os burros são "mimados" com o próprio lixo que transportam.

 Um burro de Ozone trabalha dois dias e descansa no estábulo no terceiro, além de sempre sair nas mesmas horas e com o mesmo transportador, porque segundo o empresário a relação pessoal é fundamental entre o animal e o guia. Um veterinário faz periodicamente um tratamento médico e dentário. Quando sofrem algum acidente, são levados a uma clínica especializada em burros e mulas.

 
Segundo Badraui, o burro não só é mais barato: custa 1 mil dirham (cerca de 100 euros) a unidade, e tem uma vida laboral útil de oito anos. Além disso, é mais "amigável" para o ambiente : não gasta gasolina, não produz monóxido de carbono e pode embrenhar-se pela Medina durante a madrugada sem fazer o barulho que fazem os veículos de limpeza.

 O único inconveniente dos burros é que zurram às 5h da manhã, fazendo lembrar o trecho do Corão atrás citado. Há cerca de um milhão de burros activos em Marrocos; a maioria trabalha de sol a sol nas tarefas agrícolas, numa realidade completamente diferente da dos burros operários de limpeza urbana de Fez.

 

Foto e texto original enviados por Vanda Baltazar.

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1 comentário:

fb disse...

Quem diria que, numa época marcada por um autentico assalto aos direitos laborais em toda a Europa, um pouco mais a Sul, já em África, o sofrido burro marroquino teria finalmente direitos trabalhistas, horário de trabalho, pausas para almoçar, períodos de formação, acesso a clínicas de urgência e cuidados de barbearia e dentista? Um dos animais mais maltratados em Marrocos, o burro, é alvo de piadas, brincadeiras maldosas, ataques e é um símbolo da estupidez ao ponto de, quando se pronuncia o seu nome ("hmar"), ser regra de boa educação baixar a voz e dizer "com o perdão da palavra". Existe um trecho do Corão que diz que não há no mundo som mais desagradável do que o zurro de um asno.