terça-feira, 9 de abril de 2013

O especialista da manhã


O dia amanheceu sem notícias. Prova disso, a grande notícia da manhã é a de que os funcionários públicos e aposentados irão pagar mais IRS e a culpa é toda do Tribunal Constitucional. É óbvio que sim, já o era desde Sexta-feira: o salário bruto anual aumentará ao ser aumentado em um salário mensal. Saberá bem pagar mais IRS, saberia pagar mais ainda se tal significasse ainda outro salário. A imprensa do regime cumpriu o seu papel ao tentar provocar um alarido capaz de mobilizar a ignorância contra o Tribunal Constitucional.

A  rádio pública foi ainda mais longe na desonestidade. Convocado a comentar a notícia, o fiscalista Tiago Caiado Guerreiro aproveitou para espicaçar as hostes também contra um sistema fiscal, nas suas palavras, "demasiado progressivo", que apontou como responsável pela subida de impostos, quando também haveria aumento do imposto a pagar caso vigorasse o sistema proporcional, o tal com um único escalão, tão desejado por pôr os ricos a pagar menos e os pobres a pagar mais.

E o  nosso especialista não enjeitou a oportunidade de se tornar ele próprio a notícia da manhã. Foi mais longe ainda no seu repertório de receitas mágicas e aproveitou para sugerir a substituição do subsídio de férias de funcionários públicos e pensionistas por títulos do tesouro indexados ao crescimento económico, ou seja, títulos que teriam sido remunerados a uma taxa de juro negativa em 3,2% no ano passado e que seriam remunerados a 2% também negativos este ano, caso se confirmem as previsões sempre optimistas do Governo e parceiros de pilhagem. É realmente de assinalar o patriotismo destes especialistas que defendem juros agiotas como remuneração justa dos empréstimos contraídos junto dos credores externos e juros negativos para remunerar com toda a justiça a dívida que seja contraída junto de compatriotas seus. Especializaram-se nisto.

(editado)

2 comentários:

JM disse...

O mais extraordinário é que o homem foi lá para , supostamente, explicar essa tal subida do imposto pago por via do recebimento do salário surripiado no ano passado. Falou disso 30 segundos e o resto do tempo "comentou" o que parece ter-se tornado uma espécie de passatempo para os tipos que vão aparecendo nas rádios e nas televisões travestidos de especialistas disto e daquilo.

Anónimo disse...

Como é sabido, a decisão do TC de chumbar as quatro normas do OE 2013 baseou-se nos princípios da igualdade e da proporcionalidade. O Governo e os seus comentadores de serviço insistem em falar numa Constituição que impossibilita as suas reformas. Por outras palavras, das duas uma: para poderem governar, ou seria necessário revogar os princípios da igualdade e da proporcionalidade, e passaríamos a ter consagrado na Constituição uma nova ordem com cidadãos desiguais perante a lei e com a proporcionalidade invertida que já se verifica na sobrecarga da tributação sobre rendimentos do trabalho que existe para aliviar a carga fiscal de rendimentos de capital e de rendas financeiras, ou então a revogação completa da Constituição e a instauração em Portugal de um regime assumidamente arbitrário, não sei como chamar-lhe, se anti-Estado de direito ou Estado de anti-direito. Ora, esta monstruosidade, aliás como todas as outras que o Governo se tem permitido, não estava no programa eleitoral com que se fez eleger. E não precisamos de alterar a Constituição. O que necessitamos é de mudar de Governo. Que governe para as pessoas e não para troikas e clientelas crónicas dos três partidos que as representam no Parlamento. Higienize-se o Parlamento também.