terça-feira, 16 de abril de 2013

Nós e a Venezuela


Nicolás Maduro foi oficialmente declarado vencedor nas eleições presidenciais da Venezuela, com 50,7% dos votos. Os apoiantes de Henrique Capriles, que contestou o resultado revelado pela autoridade eleitoral e que lhe atribui 49,1% da votação, saíram às ruas de Caracas em protesto na noite de segunda-feira. As manifestações tornaram-se violentas e sete pessoas morreram, segundo o último balanço.

A realidade política venezuelana surpreende-nos todos os dias. E é natural que assim seja. Desde a aparição ao ainda candidato Maduro do defunto Presidente encarnado num passarinho, passando pelo argumento eleitoral de que o voto em Maduro seria a única forma de garantir a sobrevivência da espécie humana e terminando nos comícios de ambas as candidaturas que rapidamente se transformavam em fervorosíssimas e não menos patrióticas orações ao divino, encarregado de zelar pela Venezuela e pela vitória de cada um dos candidatos, tudo é diferente da forma de estar e de fazer política em Portugal e na Europa.

Porém, e precisamente por todas estas diferenças, a mim ainda me surpreendem mais as reacções que vou presenciando por aqui, com gente a posicionar-se radicalmente a favor de um e com o mesmo entusiasmo contra o outro candidato, mais sabendo que nenhum deles é nenhum santo. Pessoalmente, se fosse venezuelano, talvez votasse Maduro. Maduro é um grande aldrabão, o chavismo é um poço sem fundo de corrupção, mas, ainda assim, tem obra feita no combate à pobreza e às desigualdades, na alfabetização dos venezuelanos e no acesso à Saúde que antes não tinham. Uma vitória de Henrique Capriles significaria que o petróleo venezuelano deixaria de financiar tudo isto, aristocracia bolivariana incluída, e voltaria a enriquecer as multinacionais americanas.

Como não sou venezuelano e como todo aquele carnaval me causa bastante repugnância, felizmente que não tenho que escolher, aliás como nenhum português tem. Limito-me a contentar-me com o facto de os venezuelanos terem podido escolher o seu Presidente em eleições livres e democráticas. Mas intriga-me todo o entusiasmo que para aí vejo. Será que quem se empenha tanto em posicionar-se num ou no outro lado se identifica assim tanto com Maduro ou com Capriles? Ou será todo este arreganho provocado por aquele mesmo condicionamento que faz de PS e PSD os vencedores crónicos das nossas eleições? Honestamente, não sei responder. Mas quer-me cá parecer que os portugueses não são assim tão menos malucos do que os venezuelanos como poderá parecer à primeira vista.

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