segunda-feira, 29 de abril de 2013

Na ditadura dos consensos


Os consensos alargados, a responsabilidade, o sentido de Estado, as maiorias absolutas. Primeiro foi Cavaco Silva, num 25 de Abril à porta fechada, a empregar todas estas e outras expressões que podem significar tudo e o seu contrário, a declarar suspensa a democracia e a proclamar o estatuto de figura decorativa para toda a oposição. Logo a seguir, no fim-de-semana, foi António José Seguro, num Congresso com rótulo de “novo rumo”, a socorrer-se das mesmas fórmulas de vácuo para se recrear nesses terrenos tão do agrado do senhor Presidente e, segundo os especialistas, também dos mercados.

Ainda não se chama assim, mas António José Seguro pediu uma “maioria consensual”: uma maioria absoluta comprometida na formação de uma coligação e de acordos de incidência parlamentar, ambos desnecessários para formar Governo havendo maioria absoluta. Da mesma forma, também ainda não se chama assim, mas Seguro propôs uma “austeridade responsável”: aquela que aposta no crescimento sem deixar de impor sacrifícios e sem abdicar do ferrete da disciplina orçamental, ou seja, sem deixar de ser austeridade. Finalmente, também ainda não se chama assim, mas Seguro aposta num “sentido de Estado consensualizado” capaz de obrigar os credores externos a reduzirem os juros agiotas que os enriquecem e nos empobrecem, tudo isto através da via do bom senso, essa coisa que inspirou as criações “maioria consensual” e “austeridade responsável”.

E como não disse absolutamente nada, entre outros, sobre o investimento público que falta para criar emprego, sobre o aumento salarial generalizado e sobre a devolução da estabilidade aos vínculos laborais sem os quais será impossível recuperar o consumo interno que falta para que a economia cresça e crie emprego, sobre rasgar o memorando que consome os recursos que deixaram de ser canalizados para serviços públicos e protecção social, sobre a proibição que urge impor a um sector financeiro que desvia do crédito que não fornece ás empresas os dinheiros públicos que recebeu e utiliza para especular no “mercado” sem risco e com altas rentabilidades da dívida que os Seguros desta vida não querem que deixemos de pagar, na prática, António José Seguro quis dizer a Cavaco Silva que aceita o papel de figura decorativa na sua ditadura dos consensos.

Se, por mero acaso, o inquilino de Belém resolver uma vez na vida ser Presidente da República e dissolver um Parlamento cuja composição nasceu de uma série de mentiras eleitorais e já não reflecte a vontade dos portugueses, Cavaco Silva pode tranquilizar-se que nada de demasiado significativo se alterará caso o PS saia vitorioso das eleições que se venham a realizar a seguir. Cavaco que olhe para a nova composição da Comissão Nacional do PS que saiu do Congresso deste fim-de-semana: está cheia de gente que defende um Governo PS-PSD. Os cavaquistas do PS agora dominam completamente o aparelho do partido. Ou serão apenas radicais do consenso?

1 comentário:

Anónimo disse...

Os consensos alargados, a responsabilidade, o sentido de Estado, as maiorias absolutas. Primeiro foi Cavaco Silva, num 25 de Abril à porta fechada, a empregar todas estas e outras expressões que podem significar tudo e o seu contrário, a declarar suspensa a democracia e a proclamar o estatuto de figura decorativa para toda a oposição. Logo a seguir, no fim-de-semana, foi António José Seguro, num Congresso com rótulo de “novo rumo”, a socorrer-se das mesmas fórmulas de vácuo para se recrear nesses terrenos tão do agrado do senhor Presidente e, segundo os especialistas, também dos mercados.
Ainda não se chama assim, mas António José Seguro pediu uma “maioria consensual”: uma maioria absoluta comprometida na formação de uma coligação e de acordos de incidência parlamentar, ambos desnecessários para formar Governo havendo maioria absoluta. Da mesma forma, também ainda não se chama assim, mas Seguro propôs uma “austeridade responsável”: aquela que aposta no crescimento sem deixar de impor sacrifícios e sem abdicar do ferrete da disciplina orçamental, ou seja, sem deixar de ser austeridade. Finalmente, também ainda não se chama assim, mas Seguro aposta num “sentido de Estado consensualizado” capaz de obrigar os credores externos a reduzirem os juros agiotas que os enriquecem e nos empobrecem, tudo isto através da via do bom senso, essa coisa que inspirou as criações “maioria consensual” e “austeridade responsável”.
E como não disse absolutamente nada, entre outros, sobre o investimento público que falta para criar emprego, sobre o aumento salarial generalizado e sobre a devolução da estabilidade aos vínculos laborais sem os quais será impossível recuperar o consumo interno que falta para que a economia cresça e crie emprego, sobre rasgar o memorando que consome os recursos que deixaram de ser canalizados para serviços públicos e protecção social, sobre a proibição que urge impor a um sector financeiro que desvia do crédito que não fornece ás empresas os dinheiros públicos que recebeu e utiliza para especular no “mercado” sem risco e com altas rentabilidades da dívida que os Seguros desta vida não querem que deixemos de pagar, na prática, António José Seguro quis dizer a Cavaco Silva que aceita o papel de figura decorativa na sua ditadura dos consensos.
Se, por mero acaso, o inquilino de Belém resolver uma vez na vida ser Presidente da República e dissolver um Parlamento cuja composição nasceu de uma série de mentiras eleitorais e já não reflecte a vontade dos portugueses, Cavaco Silva pode tranquilizar-se que nada de demasiado significativo se alterará caso o PS saia vitorioso das eleições que se venham a realizar a seguir. Cavaco que olhe para a nova composição da Comissão Nacional do PS que saiu da Convenção deste fim-de-semana: está cheia de gente que defende um Governo PS-PSD. Os cavaquistas do PS agora dominam completamente o aparelho do partido. Ou serão apenas radicais do consenso?