segunda-feira, 1 de abril de 2013

Gostei de ler: "A estupidez funcional"


«um estudo publicado recentemente, os professores Andre Spicer (da Cass Business School - City University de Londres) e Mats Alvesson (da Universidade de Lund, na Suécia), referem que a cultura da estupidez estaria na origem da crise financeira da City e que a utilização da totalidade das capacidades intelectuais, da inteligência dos seus funcionários, em estruturas e instituições onde o conhecimento tem um lugar privilegiado, é sistematicamente desencorajada em tempos de crise. “Não pense sobre isso, faça” é a postura desenvolvida, onde a reflexão sobre as questões chatas e inoportunas é sistematicamente desencorajada, numa cultura organizacional a que os autores do estudo chamam de “estupidez funcional”.

Quando pensamos que o primordial, em muitas das empresas e instituições que gerem as nossas vidas, é a inteligência dos seus funcionários, e quando nos apercebemos que em muitas delas é a estupidez que impera e que esses funcionários, normalmente com um QI alto e muito inteligentes, são incentivados a limitarem-se a fazer o seu trabalho, sem reflectir muito, sentimos ou temos consciência de que estamos a atravessar um tempo preocupante e perigoso. Quando o modelo de gestão evita toda a forma de confrontação, de troca de ideias de perspectivas, quando impede que se reflicta profundamente sobre cada projecto, está-se a privar do que é a essência do conhecimento, bloqueando a acção e impedindo que se saia do caminho traçado, que se pense “fora da caixa”. É o desenvolvimento de um modo de gestão baseado na persuasão, como escrevem os autores do estudo, utilizando imagens e símbolos fortes para manipular as tropas numa mesma e única direcção, uma espécie de lobotomia, mostrando até que ponto as capacidades cognitivas dos indivíduos podem ser limitadas desde que se instauram relações de poder e de dominação em lugar de se apelar aos recursos dos indivíduos.

 De facto, o estudo aparecido no « Journal of Management Studies » sublinha que a “estupidez funcional contribui para reforçar a ordem nas organizações”, um fenómeno bem conhecido dos psicólogos que mostra como o medo provoca uma suspensão da actividade e da inteligência, levando a substituir a qualidade das acções pela quantidade. Um método de gestão que não deixa lugar à singularidade e aos recursos dos indivíduos, e que acaba por privar as organizações das competências essenciais para continuarem a desenvolver-se.

A estupidez “inteligente” provoca a instabilidade e a esterilidade da vida intelectual, e, não sendo uma doença mental, não é menos perigosa que a mais perigosa das doenças do espírito porque ameaça a própria vida. Tal como aconteceu nos finais da década de trinta em plena ascensão do nazismo.» – Carlos Fragateiro.


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