quinta-feira, 11 de abril de 2013

Aulas práticas sobre voto útil: imunidade

Há um dia, ontem, a moralidade da Pátria ficou muito ofendida ao saber do interesse manifestado por Miguel Relvas em voltar ao Parlamento. E nada mais legítimo e natural. Acaso não o elegeram os que votaram na lista que encabeçou ás últimas eleições e não o deixaram eleger todos os que não foram votar nesse distante 5 de Julho da nossa desgraça? Elegeram-no por um período que ainda não terminou, o lugar no Parlamento é seu por direito. Mas hoje ficámos a saber a razão de tanto interesse. É que o caso Tecnoforma está a começar a apertar e a imunidade parlamentar viria mesmo a calhar. Da próxima vez, em vez da histeria do costume, a moralidade que recorde que é também imunidade o que está a confiar a alguém em quem se confia o voto e que é imunidade parlamentar o que está a desbaratar quem fica em casa no dia das eleições, confiando o futuro à escolha dos primeiros. Às vezes, a coisa não corre pelo melhor.


Sobre a mesma moralidade: «Há dois anos, meio Portugal ficou feliz quando ouviu dizer  que o primeiro-ministro ia passar a sentar-se na turística da TAP quando ia a Bruxelas. Bateu palmas quando soube que Assunção Cristas ia proibir as gravatas no Terreiro do Paço para poder baixar o ar condicionado. Festejou cada vez que o "Correio da Manhã" trazia uma lista de ordenados e pensões milionárias, mesmo que o conceito de milionário fosse próprio da Albânia.  Rebentou de contentamento de cada vez que Miguel Relvas descobria uma fatura por pagar do Governo anterior.
Cada vez que uma notícia dessas saía, os portugueses pensavam que os seus problemas estavam a ser resolvidos. Se Passos ia em económica e Cristas só bebia água da torneira, se os Falcon ficavam parados nos hangares da Força Aérea e se Relvas divulgava quanto é que os realizadores sacavam ao Estado em subsídios e quanto é que ganhava a Catarina Furtado, a vida dos portugueses estava resolvida.
Há dois anos que critico publicamente essa demagogia pobrezinha. Pelas mentiras que esconde, pelos efeitos orçamentais que não produz e pelo engano em que envolve os portugueses. A demagogia pobrezinha não só tira toda a dignidade ao Estado e aos seus representantes, como não impedia nem adiava a mais dura das realidades: os impostos teriam que subir e os salários e pensões teriam que descer.
No mesmo dia em que a ministra da Agricultura chamava os jornalistas para mostrar os seus ajudantes sem gravata, ela sabia que os impostos iam aumentar brutalmente e as pensões cair. E sabia que o ar condicionado dela não valia um prato de lentilhas. O mesmo para Passos, Relvas e quase todos os ministros - Paulo Macedo e Crato não entraram muito neste campo - que divulgavam listas de motoristas e salários exorbitantes dos seus serviços.
Esta estratégia foi pensada e executada por Miguel Relvas. O mesmo ministro que se demitiu há uma semana mas que ainda está em funções. O mesmo ministro que sempre soube que até num Estado em que se afunda tem que haver pão e circo. E que mesmo quando não há pão, tem que haver circo. Ir ao Coliseu de Roma à borla ou partilhar textos com gastos do Estado é, na cabeça de Relvas, a mesma coisa. Na de muitos portugueses também. Partilhai e espalhai a mensagem.» - Ricardo Costa, no Expresso.

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