sexta-feira, 29 de março de 2013

Uma censura "assim assim"


“Só um novo Governo, democraticamente legitimado, com forte apoio popular, estará em condições de interpretar e protagonizar o novo consenso nacional.” A frase faz parte da moção de censura entregue nesta quinta-feira no Parlamento pelo PS e confirma, mais uma vez, a aposta socialista em eleições antecipadas.

Mas o que é que o PS quer que os portugueses apoiem? O que é o novo consenso nacional"? Fui ler o texto da moção. É capaz de andar por aqui: "o Governo rompeu todos os equilíbrios necessários à boa condução do país e do processo de ajustamento". O PS quer prosseguir o "ajustamento", palavra repetida insistentemente ao longo do texto da moção.

Mais adiante lê-se que " o PS sempre se opôs à política de austeridade do Governo". O PS que assinou o memorando e votou ao lado do PSD e CDS na aprovação da "regra de ouro" da perpetuação da ultra-austeridade" não é o mesmo que agora pede um "consenso", que descobrimos mais à frente em "o PS sempre se bateu por uma participação forte e activa de Portugal na negociação europeia, com vista à superação da gravíssima crise que a Europa atravessa, mas também à melhoria constante e sistemática do nosso processo de ajustamento". O consenso é o europeu, o mesmo que empurrou Portugal e a Europa para a ruína. A melhoria constante do nosso processo de ajustamento será a a redução progressiva das funções do Estado até caber no tecto de 0,5% de défice orçamental da regra de ouro que o PS conseguiu através da sua participação forte e activa no processo de descalabro europeu.

"Os portugueses não aguentam mais. Ao contrário do que diz o Governo, Portugal não está na direcção certa. Chegou a altura de dizer: Basta! Chegou o momento de parar com a política de austeridade que está a empobrecer o nosso país e a exigir pesados sacrifícios aos portugueses sem que se vejam resultados. Os portugueses cumpriram, mas o Governo falhou." E agora está na hora de mudar de Governo para que o PS tenha a oportunidade de falhar outra vez.

É uma moção muito pobrezinha, que pode resumir-se na pretensão expressa do PS de continuar o mesmo "ajustamento" de ruína através do mesmo consenso que o actual Governo tentou convencendo os portugueses de que a dor que sentiam nos bolsos e nos direitos sociais eram a cura para todos os males do país. Censura os autores e procura censurar as políticas sem nunca censurá-las de todo. É uma censura "assim assim". À PS. 
Bloco de Esquerda e PCP anunciaram que votariam a favor desta moção antes mesmo de conhecerem os termos em que seria redigida. Sou forçado a lamentá-lo, sem deixar de registar que se comportaram exactamente da mesma forma que o PS em moções anteriores. Não é pela moção do PS que passa a queda do Governo. Ter-se-iam dignificado muito mais, também aos eleitores que lhes confiaram os votos, se se tivessem recusado a participar nesta mediocridade. Porque é pura mediocridade  o que ressalta desta moção. Portugal merece e necessita de muito mais do que isto. Mas se não têm melhor para oferecer, será caso para concluir que estamos conversados.

Nota: vale a pena olhar para o "ajustamento" francês, o modelo que Seguro tenta imitar.

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