quarta-feira, 6 de março de 2013

Hasta siempre, Hugo Chavez


O Presidente da Venezuela, Hugo Chávez, morreu nesta terça-feira, aos 58 anos, num hospital militar em Caracas, na sequência de complicações após a quarta operação ao cancro, anunciou o vice-presidente Nicolás Maduro.
O populismo trauliteiro de Chavez sempre me refreou a admiração por tudo o que fez pelo seu povo. Mas convém recordá-lo, antes de Chavez, o petróleo venezuelano servia quase exclusivamente para enriquecer multinacionais americanas. Foi ele que as nacionalizou e pôs a extracção petrolífera a fornecer recursos ao combate à pobreza - ver gráfico aqui - e a financiar Saúde, Educação, Cultura  e protecção social  a quem antes não as tinha. É para isto que devem servir os recursos naturais de um país, não para enriquecer uma minoria, como acontece em países em princípio bastante mais democráticos, e reforço o "em princípio", porque Chavez sempre manteve o poder na observância de regras reconhecidas como democráticas em países onde os média também servem para assegurar a perpetuação dos regimes respectivos.
É verdade que actualmente existe muita corrupção na Venezuela, mas com toda a certeza que não mais que a que existia antes da chegada de Chavez ao poder ou se Chavez nunca tivesse existido. Que descanse em paz. Os venezuelanos têm boas razões para chorarem a morte do seu Presidente.

(editado)

4 comentários:

Anónimo disse...

"A demonização de Chávez "

por Eduardo Galeano, escritor e jornalista uruguaio

Hugo Chavez é um demónio. Por quê? Porque alfabetizou 2 milhões de venezuelanos que não sabiam ler nem escrever, mesmo vivendo em um país detentor da riqueza natural mais importante do mundo, o petróleo.
Eu morei nesse país alguns anos e conheci muito bem o que ele era. O chamavam de “Venezuela Saudita” por causa do petróleo. Havia 2 milhões de crianças que não podiam ir à escola porque não tinham documentos… Então, chegou um governo, esse governo diabólico, demoníaco, que faz coisas elementares, como dizer: “As crianças devem ser aceitas nas escolas com ou sem documentos”.
Aí, caiu o mundo: isso é a prova de que Chavez é um malvado, malvadíssimo. Já que ele detém essa riqueza, e com a subida do preço do petróleo graças à guerra do Iraque, ele quer usá-la para a solidariedade. Quer ajudar os países sul-americanos, e especialmente Cuba.
Cuba envia médicos, ele paga com petróleo. Mas esses médicos também foram fonte de escândalo. Dizem que os médicos venezuelanos estavam furiosos com a presença desses intrusos trabalhando nos bairros mais pobres. Na época que eu morava lá como correspondente da Prensa Latina, nunca vi um médico.
Agora sim há médicos. A presença dos médicos cubanos é outra evidência de que Chavez está na Terra só de visita, porque ele pertence ao inferno. Então, quando for ler uma notícia, você deve traduzir tudo.
O demonismo tem essa origem, para justificar a diabólica máquina da morte.

Mariposa Colorida disse...

Até logo! Ele não vai ficar esquecido!

Sobre o culto da personalidade (Daniel Oliveira) disse...



Não vou aqui desenvolver sobre o complexo processo político venezuelano, com particularidades que a vontade de transformar Chávez num herói ou num vilão geralmente esquecem. Não vou falar da melhoria das condições de vida de muitos venezuelanos, do facto de 43% do orçamento do país ser para políticas sociais, da mortalidade infantil ter caído para metade, do analfabetismo ter sido drasticamente reduzido e da Venezuela ser, com o Equador, o país da América do Sul com a maior redução da taxa de pobreza entre 1996 e 2010.

Não vou falar da corrupção e da nova elite "bolivariana" que, em torno de Chávez, enriqueceu às custas do novo regime. Nem da desastrosa política económica que não está a preparar a Venezuela para um futuro sem petróleo.

Não vou falar de uma política que deu dignidade aos miseráveis, nem de um tresloucado populismo que partiu um País a meio. Não vou falar da justa resistência a um imperialismo que sempre tratou a América Latina como um quintal, pondo e depondo governantes, sugando os seus recursos e promovendo tiranetes. Não vou falar de amizades impensáveis com teocracias que nenhum homem de esquerda pode tolerar. Para além de conseguir aborrecer chavistas e antichavistas ao mesmo tempo, o que é sempre salutar, de pouco valeria neste momento. Aquilo de que quero falar, a propósito de Chávez, é de uma doença política, especialmente presente na América Latina, mas transversal a toda a vida política: o culto da personalidade.

É habitual, em movimentos políticos, sobretudo movimentos políticos revolucionários (mas não só), substituir o corpo das ideias, abstrato e incompreensível para quem não tenha preparação política, pela personalidade de um só individuo, facilmente apropriável por todos. Quando se trata de alguém que já morreu, a coisa é menos grave: cria-se um herói cujas características são devidamente moldadas para servir uma causa. Quando essa pessoa é viva e tem poder, isso implica que o poder se concentra nas suas mãos e os ideias pelos quais um movimento político se bate dependem das idiossincrasias desse individuo. Concentrar a simbologia de um processo político num homem só dá a esse homem um poder extraordinário. Na realidade, dá-lhe um poder absoluto. E se o poder corrompe, o poder absoluto corrompe absolutamente. O mais sólido dos democratas - que Chávez não seria - transforma-se num ditador se nele se concentrarmos todo o poder político.

Sobre o culto da personalidade (continuação) disse...


As intermináveis conversas de Chávez na televisão, o absurdo culto da personalidade que promoveu, a exposição de toda a sua vida pessoal, para uso político, a evidente paranoia que o levou a culpar tenebrosas forças pela sua doença, a forma como tentou eternizar-se no poder, fazendo por moldar a Constituição de toda uma nação às suas conveniências pessoais, tudo mostra um homem que olhava para si próprio como a encarnação da pátria e da sua revolução.

Dirão que a América Latina é assim mesmo, como a direita poderia dizer que as ditaduras sanguinárias que por ali vingaram eram mais características culturais do que políticas. Mas o culto da personalidade está, como a Europa sabe, bem longe de ser uma particularidade latino-americana. É uma doença política. Uma doença contrária àquelas que devem ser todas as convicções da esquerda e de qualquer democrata. Porque o culto da personalidade limita o debate democrático, dando a um homem o poder da infalibilidade. Porque destrói o sentido critico, transformando todos os que participem no mesmo projeto político em meros seguidores de um iluminado e todos os que a determinado momento se lhe oponham em traidores. Porque, em vez de distribuir o poder pelo povo, o concentra ainda mais. Já não apenas numa classe ou num determinado grupo, mas numa só pessoa. Porque faz depender do bom-senso de uma só pessoa os bons resultados de um processo que deve ser colectivo. E é difícil alguém que concentra tanto poder não se embriagar com ele e manter a lucidez. Porque faz depender um País, um partido, uma revolução de uma só cabeça, sempre limitada na sua sabedoria, inteligência e até na sua esperança de vida.

Não sei se o processo revolucionário venezuelano, ache o que se achar dele, sobreviverá a Chávez. Se sobreviver, talvez a sua morte, sempre lamentável no plano pessoal, seja uma boa notícia. E ficará provado que o chavismo era mais do que Chávez. Se não, é mais uma boa lição para todos os que, em democracia ou fora dela, na América Latina ou na Europa, continuam a acreditar em movimentos carismáticos. Sim, todas as religiões precisam do seu ícone. E a política simula sempre a religião - em vez da missa o comício, em vez do santo o mártir, em vez do altar o púlpito. Mas os ícones vivos, por terem vontade própria, são demasiado perigosos pelo poder que inevitavelmente concentram em si.

Um movimento carismático transporta sempre em si, pela sua natureza, a semente da tirania. Na política devemos ter sempre a cautela de acreditar que os que lideram não são menos frágeis do que nós. E quem se reclama de movimentos emancipadores não pode, em simultâneo, colocar a sua vida nas mãos de um homem. Nem a sua, nem a de um povo.