segunda-feira, 25 de março de 2013

Gostei de ler: "O trauma da ilha do tesouro"


«(...) E agora? Há enormes semelhanças entre o Chipre de agora e a Islândia (uma economia de dimensões semelhantes) de há alguns anos. Como o Chipre actualmente, a Islândia tinha um sector bancário enorme, inchado com depósitos estrangeiros e simplesmente grande demais para ser resgatado. A resposta do país foi basicamente deixar que os bancos falissem, eliminando aqueles investidores estrangeiros e protegendo os depositantes domésticos. E os resultados não foram maus de todo. Na verdade, a Islândia, com índice de desemprego muito mais baixo que a maior parte da Europa, vem superando a crise surpreendentemente bem.

Lamentavelmente, a resposta do Chipre à crise vem sendo uma confusão total. Em parte, isso é reflexo do fato de que a ilha não possui moeda própria, o que a torna dependente dos decisores em Bruxelas e Berlim, que não estão dispostos a permitir a falência aberta dos bancos. Mas é também reflexo da relutância do Chipre em aceitar o fim do seu negócio de lavagem de dinheiro; Os seus líderes ainda estão a tentar limitar as perdas dos depositantes estrangeiros, na esperança vã de que as coisas possam voltar ao normal, e estavam tão ansiosos para proteger os grandes depositantes que tentaram limitar os prejuízos dos estrangeiros, expropriando os pequenos depositantes domésticos. Mas os cidadãos cipriotas reagiram com ultraje, o plano foi rejeitado e, neste momento, ninguém sabe o que acontecerá.

O meu palpite é que, no fim, o Chipre adopte uma solução parecida à islandesa, mas, a menos que acabe sendo obrigado a abandonar a Zona do Euro nos próximos dias -uma possibilidade real -, é possível que antes perca muito tempo e dinheiro com medidas pela metade, na tentativa de evitar encarar a realidade, ao mesmo tempo tendo dívidas enormes com os países mais ricos. Vamos ver.

Mas paremos por um instante para reflectir no fato incrível de que paraísos fiscais como o Chipre, as Ilhas Cayman e muitos outros ainda operam mais ou menos como operavam antes da crise financeira global. O mundo inteiro testemunhou os danos que banqueiros descontrolados podem provocar, mas, mesmo assim, boa parte dos negócios financeiros do mundo ainda passa por jurisdições que deixam os bancos passar ao largo de regulamentos, até dos regulamentos brandos que instituímos. Toda a gente fala em défices orçamentais , mas corporações e pessoas ricas continuam a fazer uso livre de paraísos fiscais para evitar a obrigação de pagar impostos, como faz o povinho.

Portanto, não chore pelo Chipre; chore pelo resto de nós, que vivemos num mundo cujos líderes parecem estar determinados a não aprender com os erros.» – Paul Krugman, artigo completo aqui.

Sem comentários: