domingo, 3 de março de 2013

E hoje já é 3 de Março


Ontem, na rua ou em casa, assistimos a uma das maiores manifestações de sempre. Voltou a acontecer em várias cidades por todo o país e é opinião unânime que foi ainda maior do que a de 15 de Setembro. Também menos alegre. O povo está cansado. Está triste. Viram-se mais velhos na rua. Viram-se menos novos. Na minha cidade, e chegou-me a informação de que em muitas outras também, vi sobretudo velhos e gente pertencente a uma faixa etária acima dos 40. Abaixo dos 30, havia mesmo muito poucos. Mesmo com um desemprego que atinge 40 em cada 100, os jovens portugueses terão preferido ficar em casa a dar razão ao Governo que lhes aponta a zona de conforto que escolheram para passar a tarde de ontem como a grande culpada por não conseguirem emprego. Felizmente que Lisboa foi uma das excepções a esta regra auto-imposta por jovens de todo o país que ontem tiveram pelo menos uma forma mais útil de passar a tarde do que irem para a rua reclamarem o direito a um futuro.

E hoje já é 3 de Março.

O Governo e os partidos que o sustentam já sabem que há pelo menos um milhão e meio de portugueses que os consideram inimigos do país. E inimigos do país é precisamente o oposto daquela legitimidade democrática que alcançaram no dia das últimas eleições e começaram a perder logo no dia a seguir, quando rasgaram um contrato eleitoral feito de promessas que sabiam à partida nunca iriam cumprir. O Governo nunca mais vai poder dizer que tem toda a legitimidade democrática para continuar a impor sacrifícios a um povo que também já sabe que essa legitimidade democrática hoje está completamente diluída numa série infindável de fracassos, noutra de trapaças, noutra de afrontas  sucessivas e descaradas das quais resultaram perdas irreparáveis e noutra ainda de novos desempregados e novos pobres, as suas maiores vítimas. A concretização do anúncio de 4 mil milhões de cortes adicionais no Estado social que guardaram para depois de 2 de Março é neste momento uma loucura.

O Presidente da República também já sabe que a maior vaia de ontem no Terreiro do Paço foi para si, maior ainda do que a que levou o Governo. Já sabe que a coesão nacional que hoje existe no país é de sinal contrário daquela para a qual sempre apelou. Já sabe que não tem margem de manobra alguma para não dissolver o Parlamento no caso de o Tribunal Constitucional se pronunciar pela inconstitucionalidade do OE 2013, tal como o Tribunal Constitucional já sabe que não pode repetir a aberração do ano passado, quando conferiu legitimidade constitucional por um ano a cortes salariais através do critério da conveniência política, estranho a uma Constituição  que não se alterou com um acórdão que ficará para a História pelos piores motivos.

Os portugueses também ficaram a saber para onde foi o líder do PS no dia de uma das maiores manifestações do pós 25 de Abril. António José Seguro fugiu para longe, para Campomaior, para falar com não mais do que quatro dezenas de militantes sobre as vacuidades relacionadas com a substituição dos representantes da troika em Portugal e sobre as oportunidades de poder que possam ter-se aberto com a resposta daquela a uma carta sua. Agora são amigos íntimos e uma tradição de rotativismo alimenta legitimas aspirações de um rápido regresso ao poder sem ter que fazer pouco mais do que esperar pacientemente que o Governo caia de podre.

Até porque uma coisa é ver mais de um milhão e meio de pessoas a manifestarem-se contra um Governo e outra, bem diferente, é ver esse protesto materializar-se num número de votos suficiente para arredar do poder as três forças partidárias que se foram alternando na interpretação da sucessão de políticas que conduziram contra o interesse colectivo e a favor de uma teia opaca de interesses particulares de clientelas partilhadas por todas elas. É uma ironia do destino, mas o exercício do poder à revelia do interesse público semeou desconfianças não apenas relativamente aos seus protagonistas mas também em relação às duas forças partidárias que nunca foram poder e cujo trabalho e tradição de compromisso com os seus eleitorados respectivos, em princípio, as tornariam as sucessoras naturais de um arco de interesses que já provocou estragos suficientes para merecer novas oportunidades. Pelo contrário, essa desconfiança continua a premiar os infractores e, até prova em contrário, continuará a ser a sua maior garantia  de que o poder não foge.


No espaço de duas semanas, tivemos outras tantas grandes manifestações. Uma primeira, menor, organizada pela CGTP, e uma segunda, muito maior, organizada  por movimentos que cresceram fora de estruturas partidárias e sindicais. Bloco de Esquerda e PCP bem se esforçaram por se associarem às manifestações de ontem, mas ficou bem visível que a sua simpatia pelos movimentos que as organizaram não é recíproca. Entre ambos há um enorme fosso ideológico e estético, o estigma anti-partidos do prémio dos infractores atrás referido e dinâmicas de organização simétricas, de cima para baixo no caso dos partidos e de baixo para cima no caso das organizações de indignados, que não são nem de direita nem de esquerda e, pelo contrário, contam nas suas fileiras com adeptos de ideias como o exercício de cargos políticos apenas por quem tenha uma situação financeira que lhe permita abdicar do seu salário e da classificação da competência para exercer o poder medida pela inversa da cilindrada do carro em que tanta competência se faça transportar.
É da manutenção ou não deste fosso que depende a mudança ou a continuidade. Os três partidos que sempre nos governaram rezam a todos os santinhos que se mantenha. Os dois partidos da esquerda têm como desafio uma alteração profunda das regras de funcionamento dos seus aparelhos que as tornem compatíveis com a dose de democracia legitimamente exigida pelos movimentos de indignados e de forma a criar condições para um entendimento que viabilize a mudança reclamada por todos. E isto no pressuposto de que os indignados, por  estarem interessados em ser agentes de mudança e não apenas vozes que protestam, também farão a sua parte nesta aproximação.

E pode muito bem acontecer que também por  cá apareça um flautista encantador de indignados que lhes acene com a mesma fórmula que fez sucesso em Itália e, com as diferenças que se lhe notam, começa a fazer o seu caminho em Espanha. Li algures que há uns anos apareceu um flautista na Alemanha que encantou os alemães com ideias muito simples e práticas, com o enorme mérito de corresponderem aos seus anseios e satisfazerem as suas raivas. Os alemães elegeram o seu flautista e a Alemanha mudou muito. Adolph Hitler mudou-a para muito pior.

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