quarta-feira, 27 de março de 2013

Do outro lado do bluff


Há médicos a receber incentivos financeiros no âmbito de um programa de redução das listas de espera para cirurgia, mas que, na prática, estão a fazer as operações que deveriam ser extraordinárias durante o horário normal de trabalho. No caso mais flagrante, o de um oftalmologista, foram pagos mais de 1,3 milhões de euros no âmbito do Sistema Integrado de Gestão de Inscritos para Cirurgia (SIGIC), sendo que 1,2 milhões dizem respeito a intervenções feitas durante o horário do médico. Tudo isto são ilegalidades que constam de um relatório da Inspecção-Geral das Actividades em Saúde, que detectou ainda que 80% dos médicos têm um horário de manhã, da conveniência da medicina que exercem no sector privado, mas não de um SNS que é posto a pagar horas extraordinárias para assegurar que os serviços funcionem durante todo o dia.
Está na hora do Governo que diz que temos um Serviço Nacional de Saúde muito acima das possibilidades do país actuar no sentido de pô-lo nos eixos dessas possibilidades. Está na hora de mostrar que tem com os médicos a mesma coragem que tem mostrado com outros grupos socio-profissionais sem histórico de fazer cair Governos e implementar na Saúde o mesmo regime de exclusividade que abrange toda a restante Administração Pública. Está na hora de proceder à responsabilização financeira, civil e criminal que a lei prevê dos Conselhos de Administração que recruta entre os militantes dos partidos que o suportam no Parlamento para prosseguir o interesse público e não para fechar os olhos a uma ilegalidade  que custa milhões de euros a todos os contribuintes. Já sabemos que não fará nada disto. Este Governo é um bluff. Já toda a gente percebeu que a intenção do Governo não é propriamente pôr o SNS a funcionar. O Governo e os seus dois partidos alimentam burburinhos sobre a aparição da ameaça Sócrates na televisão pública, mas conservam religiosamente todas as suas criações que sirvam o objectivo desmantelamento. O outro já tinha um apuradíssimo instinto privatizador. Que fique com a autoria do desmantelamento que os portugueses transferiram para um Passos Coelho que os salvaria do diabo Sócrates gastador.

  •  Vagamente relacionado: Até agora, sem contar com o IVA, a empresa de António Borges e Diogo Lucena já recebeu 300 mil euros, de 1 de Fevereiro de 2012 a 1 de Fevereiro de 2013, fora o montante das despesas efectuadas neste ano de contrato, que foi entretanto renovado por mais um ano. António Borges é o tal que anda pelas televisões a dizer que o salário mínimo tem que ser reduzido, diz ele que  para criar emprego. A sua empresa tem a seu cargo as privatizações, desejavelmente também do Serviço Nacional de Saúde que diz estar muito acima das possibilidades do país.
(editado)

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