quarta-feira, 6 de março de 2013

Assim, não.

Daniel Oliveira abandonou o Bloco de Esquerda. É mais um a bater com a porta às transformações que ultimamente têm tornado o Bloco num partido que vai deixando de se diferenciar dos demais ao adquirir os mesmos vícios de aparelhismo e de encapsulamento dos outros. Para além de sublinhar este centralismo, a naturalidade da reacção de Pedro Filipe Soares à notícia acrescenta-lhe outro ainda: o Bloco é um partido pequeno que parece não encontrar problema algum em perder uma das suas figuras mais mediáticas num momento de crise em que todos são poucos para a luta e num contexto de meios de comunicação social impermeabilizados a vozes que desafinem o coro de homens da situação que neles cantam a uma só voz. Reconhecidamente, o Daniel é dos que melhor desafinam. Era uma das referências do Bloco. A sua saída é uma notícia que pessoalmente lamento. Objectivamente, quer queiram, quer não, sem o Daniel o partido não será o mesmo que foi com o Daniel. 
Nem sempre estou de acordo com o Daniel. Ainda bem. Não temos que estar sempre de acordo. São também as diferenças que nos enriquecem. Às pessoas e aos partidos. Todo este episódio reforça uma percepção que venho construindo desde um momento, que situo algures pouco depois do fracasso das últimas eleições, a partir do qual se sucederam as oportunidades perdidas para aprender com os erros e as aproveitadas para acentuar idiossincrasias que, ao mesmo tempo que se vão impondo internamente, vão criando uma nova identidade que repele aderentes e eleitores que deixam de se rever num partido que vai deixando de olhar para fora e se vai tornando um produto para auto-consumo. É pena. O Bloco tem um enorme capital de esperança que está a ser esbanjado.
Por algum motivo, que definitivamente não é importante para o seu núcleo duro ao ponto de forçar uma alteração de prioridades e de estratégia, o partido não cresce num contexto de crise violenta. E se ainda não implodiu de vez, ao fenómeno não será estranha a falta de alternativas que se oferecem a um eleitorado desesperado pela violência dessa mesma crise. Ainda vai sendo assim. Mas mais tarde do que cedo essas alternativas aparecerão. E quando aparecerem, se aparecerem, o Bloco poderá finalmente tornar-se uma caricatura de anão com duas cabeças deixado em paz a inventar correntes e a brincar aos partidos. Escrevo estas linhas precisamente porque não quero deixar o anão a minguar em paz. Hoje, mais do que nunca, Portugal precisa do Bloco.

(editado)

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