segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Mais periféricos

Quando uma empresa é pública, é vulgarmente acusada de praticar preços demasiado elevados que alegadamente traduzem ineficiências próprias de empresas estatais. Quando essa empresa é privatizada, habituámo-nos a ver os preços que pratica a subirem em flecha, ao mesmo tempo que o “regulador” nos explica que tem que ser assim e que não poderia ser diferente porque estamos em mercado e a eficiência aumentou. Se não concordarmos com o paradoxo, pagamos à mesma porque não existe concorrência e necessitamos do bem ou do serviço em causa (electricidade, combustíveis, telecomunicações, etc.).
Esta tradição rentista voltou a repetir-se com a privatização dos aeroportos. Apesar da ANA apresentar lucros elevados, o Governo aumentou as taxas e rendas antes mesmo da privatização para proporcionar ao novo dono um lucro ainda maior, de forma a aliciá-lo a concretizar a compra.
Desta vez, porém, entre o serviço prestado pelos aeroportos e o consumidor final existem consumidores intermédios, as companhias de aviação, que não estão muito convencidas a cooperarem com o Governo no objectivo de enriquecerem rapidamente o grupo Vinci, o novo proprietário e rendeiro do mais recente monopólio privado. A Associação Representativa das Companhias Aéreas (RENA), da qual são associadas algumas das maiores transportadoras que operam em Portugal (como a Air France, a Lufthansa e a própria TAP), teceu nesta segunda-feira duras críticas à ANA e ao Governo por causa das alterações feitas ao quadro regulatório das concessões aeroportuárias, que classifica de aproveitamento, e diz que algumas das suas representadas estão a equacionar reduzir ou mesmo abandonar os espaços que ocupam nos principais aeroportos portugueses.
Os preços dos bilhetes de avião já subiram, reflexo das novas tarifas da ANA, mas tudo indica que ainda  subirão mais, em consequência da diminuição da oferta por parte das companhias aéreas. A redução de rotas é outra péssima notícia para a competitividade do turismo, um dos sectores com maior peso nas nossas exportações. São muito más notícias também para todos os nacionais que necessitem deslocar-se ao exterior. A privatização da ANA tornou-nos mais periféricos. Alienar interesses estratégicos nacionais nunca apresentou vantagens para mais ninguém do que para os seus compradores. Pode ser que os portugueses finalmente o percebam e não permitam a privatização do sector da água e a venda da transportadora aérea nacional. Já seria tempo de deixarmos de pagar com a generalização da precariedade e de salários mínimos  toda a competitividade da economia portuguesa que os sucessivos Governos foram esbanjando directamente para os bolsos dos rendeiros do país.

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