segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Então e a preta?


Hoje, trago-vos uma anedota. Diz o turista para o alentejano: "Ti Maneli, o senhor tem duas vacas. Gosta mais da branca ou da preta?" Ti Maneli pensa, pensa, pensa e responde: "da branca". O forasteiro volta à carga: "então e da preta?" Ti Maneli pensa, pensa, pensa e respondi: "da preta também".
Vou agora contar-vos a mesma anedota com personagens diferentes. Bento XVI anunciou a sua resignação por motivos de saúde. A Igreja Católica portuguesa, aliás como muitas outras por esse mundo fora, reagiu classificando o gesto como um acto de coragem e muito amor. Então e se Bento XVI tivesse anunciado que continuava em funções apesar da idade e dos problemas de saúde a ela associados? Resposta: da preta também. E não me perguntem por que é que a mudança de personagens assassina completamente a anedota original. É mistério da fé.

Vagamente relacionado: Mais do que querelas teológicas, são o dinheiro e as contas sujas do banco do Vaticano os elementos que parecem compor a trama da inédita renúncia do papa. Um ninho de corvos pedófilos, articuladores de complôs reaccionários e ladrões sedentos de poder, imunes e capazes de tudo para defender sua facção. A hierarquia católica deixou uma imagem terrível do seu processo de decomposição moral. (ler aqui)

7 comentários:

Maquiavel disse...

Em bom português, o homem abdicou. Sim, abdicou.
Quanto muito "resignou ao cargo" e aos sapatinhos Prada e bolsas Chanel.

Filipe Tourais disse...


resignar | v. tr. | v. tr. e intr. | v. pron.

(latim resigno, -are, tirar o selo, abrir, descobrir, desvendar, anular, renunciar)

v. tr.


1. Desistir de alguma coisa, geralmente em favor de outrem. = ABDICAR, RENUNCIAR

v. tr. e intr.

2. Abandonar um cargo ou função de forma voluntária. = DEMITIR-SE

v. pron.

3. Ter resignação; aceitar pacientemente o que se apresenta ou acontece. = CONFORMAR-SE, SUJEITAR-SE

4. Submeter-se à vontade divina.
Confrontar: resinar.

Mariposa Colorida disse...

Nunca foi merecedor da minha particular simpatia. Mas assumo-me como católica. E em vez da anedota, deixo uma expressão muito portuguesa: para certas pessoas é preso por ter cão e é preso por não ter. Quer ficasse quer abdicasse como o fez, sempre heveria quem o criticasse!

Filipe Tourais disse...

Discordo. Podiam perfeitamente ter sido mais comedidos e limitarem-se a dizer que compreendem a decisão, que o senhor estava doente e era-lhe penoso continuar a ocupar um cargo tão trabalhoso, etc, etc. Renunciar, na minha terra, nunca foi acto de coragem.

JC disse...

Então o Rato Zinger vai-se embora. Não fez nada de bom este homem.
Tentou apagar os poucos restos de abertura que ficaram do tempo do Vaticano II e perseguir os católicos que, apesar de tudo, procuravam exprimir na sua prática religiosa alguma ética humanística e preocupação social. A censura às freiras americanas por se ocuparem demasiado com os oprimidos e se mexerem pouco contra o aborto é um exemplo claro. A mordaça imposta ao teólogo progressista Hans Küng, seu antigo colega de universidade, é outro.
Lutou por fazer da sua igreja uma máquina internacional política de direita como era nos tempos de Pio XII e do apoio a Franco e a Salazar, e usou-a nos EUA para lutar contra Obama e a favor de Mitt Romney, em Portugal e alhures para lutar contra os direitos das mulheres e dos LGBT, em África contra o acesso ao preservativo por parte das populações ameaçadas pela sida, negando-lhes o direito à vida e à saúde.
Tornou-se cúmplice no encobrimento criminoso dos crimes sexuais dos padres católicos, ao recusar a sua denúncia às autoridades legais.
Não sei se a sua demissão se deve à incapacidade de controlar as ramificações deste escândalo que continua a desenvolver-se, junto com outros, ou à vontade de controlar a eleição de um sucessor tão reacionário como ele para o trono do Vaticano.
De qualquer dos modos, Joseph Ratzinger não deixa saudades.

de Jorge Campos disse...

foram precisos 600 anos para um papa renunciar. razões de saúde invoca ele. eu, não sendo crente, sou respeitador de uma igreja dos pobres e dos justos. por isso, há episódios da longa história do vaticano que me causam calafrios. por exemplo, e para referir apenas a história recente, as boas relações com hitler, mussolini, franco, salazar e pinochet. o vaticano é pragmático, dir-se-á. pois, mas então como se regula o pragmatismo de estado com a fé dos crentes e a atenção devida aos deserdados da vida e da esperança que deveriam ser a razão de ser da igreja? este homem, ratzinger, tem um passado ligado à juventude hitleriana e, durante muito tempo, a um silêncio ensurdecedor sobre o holocausto. fez-se padre em 1951 e tornou-se numa espécie de intelectual orgânico do catolicismo - quase sempre reaccionaríssimo, acrescente-se - até ser feito papa em 2005. o seu consulado foi manchado por pecados capitais que foram sendo escondidos debaixo dos cerimoniais de tapete: dos escândalos da lavagem de dinheiro do banco ambrosiano à vergonha da relativização moral dos casos - e foram tantos! - de padres pedófilos. não quero ir mais longe. ratzinger sai debilitado, disse ele, e vai para um convento. eu, apesar de tudo, quero crer que nesta renúncia cabe o arrependimento.

arménio pereira disse...

Os católicos não criticam as hierarquias, senão corria-se o risco de irem por aí acima até à divindade - o que lhes valeria a danação eterna. O que parece certo é que a resignação apanhou esta rapaziada "sacrística" com as calcinhas na mão e, como não podem dizer mal, regurgitam em uníssono as loas emanadas à pressa pelas cúpulas sacerdotais. Alegrem-se, contudo: dado que o único sacerdote português dado a meninices (padre Frederico, anyone?) foi à muito expurgado, parece estar na altura de ter no topo da santa sé um representante da única igreja isenta do pecado. Assim uma espécie de Furão Burroso das almas portuguesas, sempre pronto a zelar primeiro pelos interesses das santas consciências lusas... o que nos levaria a ser, a prazo, intervencionados não pela santíssima trindade, mas pelo demo.