segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Vai calhando a vez a todos

As disparidades salariais entre homens e mulheres na União Europeia (UE) diminuíram entre 2008 e 2010, mas não por se ter registado uma melhoria estrutural no mercado de trabalho, nem porque as mulheres viram melhorados os seus níveis salariais. A convergência ocorreu pela deterioração das condições económicas em sectores onde predomina a mão-de-obra masculina. Não era por aqui que tencionava abordar a extinção da ADSE defendida por PSD, CDS e PS, os primeiros mais declaradamente, o segundo, por motivos óbvios, mais sub-repticiamente, a fazer de tudo para que um dia, quando os papeis se invertam novamente,  o sucessor de Pedro Passos Coelho se entusiasme no verbo e diga que "não foram as propostas do relatório tal & coiso que António José Seguro prometeu aos portugueses.
Contudo, o nivelamento por baixo é o traço comum quer das duas notícias, quer das políticas implementadas por três partidos – um deles armado em guardião do Estado social que ajuda a desmantelar – empenhados em eliminar quaisquer resquícios das regalias sociais que nunca tivemos se comparados com franceses e alemães. Os três partidos do centrão falam numa injustiça terrível que consiste em descontar uma percentagem adicional do salário para financiar um sub-sistema público de saúde com coberturas um pouco melhores do que as oferecidas pelo regime geral. Isto poderia ser alargado aos trabalhadores do sector privado e todos, excepto as seguradoras do ramo saúde,  teríamos mais em vez de menos, como sempre propõem para depois imporem.
Tudo é defensável em nome desta justiça que retira em vez de dar. Chegará o dia em que a injustiça proposta será a disparidade salarial entre trabalho qualificado e não qualificado debaixo do argumento de ser uma "injustiça" que o salário de quem trabalha comodamente instalado num escritório climatizado seja superior ao salário de quem sua e se suja ao sol e à chuva. Nesse dia, ficaremos todos a ganhar o mesmo. O mínimo. Este é o ideal deste capitalismo que se confunde no igualitarismo da antiga União Soviética até nas ADSEs que vai fazendo desaparecer. Excepto para membros do comité central da finança e seus fieis servidores. Não necessitarão de oferecer o mais enquanto houver quem se regozije com o menos dos outros. E vai calhando a vez a todos.
 
  • Vagamente relacionado:  Numa nota enviada às redacções, as Finanças garantem que, "não obstante a alteração verificada nas tabelas de retenção na fonte para o ano de 2013, estima-se que cerca de 80% dos sujeitos passivos que venham a receber o subsídio de Natal em duodécimos durante o ano de 2013 irão manter ou aumentar o seu rendimento mensal líquido". O rendimento anual líquido, pelo contrário, diminui para toda a gente com rendimentos suficientes para pagar impostos.
  • Ainda mais vagamente: a vaga que começou na sexta-feira pode significar uma mudança de rumo na forma dos gregos protestarem. Entre sexta à noite e a segunda-feira de manhã, os alvos foram sobretudo ligados ao poder. Sedes de bairro do Partido Socialista (PASOK) foram vandalizadas, assim como balcões bancários. A casa de um irmão do porta-voz Simos Kedíkoglu ficou sem vidros e na madrugada de sexta-feira foram lançadas bombas artesanais contra as casas de cinco jornalistas, sendo estes atentados reivindicados por um grupo chamado Militantes da Minoria que, em informações à imprensa, explicou ter atacado jornalistas que considera “representantes oficiais do sistema”. Na madrugada de ontem, a empresa pública de electricidade, a DEI, também foi atacada — no dia 1 de Janeiro a electricidade subiu 15% (o aumento em 2012 fora de 9,2%).

2 comentários:

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Diz o Diário Económico que o Director do Hospital de S. João mostrou que, em 2011, a ADSE teve uma despesa oficial de 559,3 milhões de euros a que adicionou 270 milhões de despesa dos hospitais públicos para tratar doentes da ADSE e 32 milhões de despesa dos hospitais com a saúde dos seus funcionários e familiares, ou seja um total de 861,3 milhões. Como as contribuições das entidades empregadoras foi de apenas 221,5 milhões, o défice real da ADSE em 2011 foi de 639,8 milhões de euros." "Os números são claros", dizem eles, e para mim são muito escuros. É que para além do que descontam a mais do que descontam os outros trabalhadores para terem ADSE, os trabalhadores do público descontam o mesmo que os do privado para financiar o SNS. É fácil contabilizar apenas a primeira parcela como receita e contabilizar tudo como despesa. O que os funcionários públicos descontam para a ADSE muitos trabalhadores do privado já descontam para seguros de saúde. São já 2 milhões os portugueses com seguro de saúde. E estes dão lucro, embora o sector se queixe que pequenos. O fim da ADSE é a notícia esperada para ficarem em emonopólio e poderem aumentar as margens a seu bel-prazer. Perdm os do público primeiro para depois perderem todos. E ganharem os mesmos de sempre. É isto que querem? Fixe. Para eles.

Gi disse...

Parece que neste país se está a conseguir o que parecia impossível, conjugar o (neo)liberalismo com o comunismo. Não está a sair coisa boa.