quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Crónica de um "sucesso" anunciado

Chegou o “teste do bom aluno”. É nestes termos que a imprensa apresenta a operação sindicada de venda de dívida pública portuguesa de longo prazo ontem anunciada. Nada de recordar o “nem mais tempo, nem mais dinheiro” e de apontar que depois do “mais tempo” de ontem, hoje já é dia de “mais dinheiro”. Pelo contrário, a tónica é posta na incógnita em torno do êxito da operação: “iremos conseguir? Os sacrifícios dos portugueses irão finalmente ser recompensados?” A resposta é mais do que óbvia: está mais do que assegurado que iremos conseguir. Ou melhor, chegou a hora do sector financeiro retribuir todas as ajudas concedidas, beneficiando de mais uma.
Para quem não saiba o que é, numa operação sindicada de emissão de dívida, o emissor, no caso, o Estado português, contacta uma ou mais instituições financeiras para que estas se comprometam a comprar a dívida emitida no caso de não haver interessados na operação. Em contrapartida, para além das comissões pagas pelo serviço, a estas instituições é oferecida a taxa de juro que se estime convença a especulação a comprar dívida portuguesa. Estima-se que o juro da emissão ronde uns 5% que comparam com os 3,5% do empréstimo contraído junto da troika, que hoje em dia apenas os fanáticos  ainda dizem que não é impagável. Recupero a questão inicial: iremos conseguir? Sim, enterrar-nos mais um bocadinho. No mercado, a 5 e não a 3,5%, digam lá se não tem outro sabor?

Ainda mais vagamente: A Irlanda regressou ontem (8 de Janeiro) aos mercados com uma emissão bem sucedida de 2,5 mil milhões de euros em obrigações a cinco anos. A taxa de juro da operação foi de 3,063%, bem abaixo dos cerca de 5% (4,891%) do “sucesso” do dia e menor do que os 3,5% que remuneram o empréstimo contraído por Portugal junto da Troika.