quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Com unhas e dentes


A actual crise e a implementação do memorando da troika vieram acentuar a divisão que já antes podia fazer-se com toda a legitimidade entre aquela parcela minoritária da população que sempre ganha e a sua complementar, correspondente à grande maioria, composta pelos que sempre perdem. Fernando Ulrich, como todos os banqueiros, pertence à minoria que sempre ganha. É, por isso, absolutamente natural que defenda com unhas e dentes um regime que, faça o que fizer e por mais erros que cometa, tirará – roubará, quando tirar não for suficiente – à maioria o que faltar à sua minoria com direitos especiais de enriquecimento.

Porém, e ideais à parte, se defender com unhas e dentes um regime que lhe proporciona uma vida tão mansa aos 1500 milhões de cada vez é uma conduta que podemos identificar como a de alguém a defender o que é melhor para si, extremar essa defesa ao ponto de insultar reiteradamente e ostentar todo o seu desprezo pelo povo que está a ser sangrado para pagar décadas de excessos da classe a que pertence já ultrapassa todos os limites do tolerável e, como tal, exigiria um reparo a pedir decoro, moderação e o mínimo mais mínimo de respeito proveniente do Governo - ler aqui - ou daquele partido da oposição que também assinou  o memorando, já que o Presidente da República é a inexistência que todos sabemos.

Todo o contrário de reparo. As declarações de Ulrich são de ontem, esta notícia é de hoje: o Governo acaba de aprovar em Conselho de Ministros aquilo a que chamam de "recapitalização coerciva"". O que é? Sempre que os accionistas de um banco se recusem recapitalizá-lo do seu bolso, olhem bem a chatice, o Estado poderá injectar dinheiros públicos no seu banco sem o seu consentimento. Ulrich não estava a brincar. Aguentaremos, tornar-nos-emos sem-abrigo se necessário for, mas o saque é para continuar. Dizia o Rei D. Carlos, por alturas da revolta de 31 de Janeiro de 1891, que éramos um país de bananas governado por sacanas. Passaram mais de cem anos e os bananas ainda não aprenderam a defender o que é seu com unhas e dentes. Como fazem os sacanas. E que bem que o fazem.

6 comentários:

Anónimo disse...

É triste, muito triste mas verdadeiro.

Os bananas continuam ser e os sacanas cada vez são mais.

Anónimo disse...


O banco islandês Landsbanki, na sua bebedeira de oferta de crédito, criou o Icesave. Uma espécie de banco virtual onde os clientes estrangeiros, sobretudo holandeses e ingleses, puseram muito dinheiro em troca de juros impossíveis. Depois sabe-se o que aconteceu. A banca islandesa, sempre aparada pelo governo neoliberal que tratou da sua privatização, colapsou. O islandeses revoltaram-se e o governo caiu. Os governos britânico e holandês decidiram pagar, sem perguntar nada a ninguém, os estragos aos clientes do Icesave dos seus países. E apresentaram a factura aos contribuintes islandeses. Ou seja, os islandeses tinham de pagar com os seus impostos as dívidas de um negócio entre privados: bancos e investidores.

Quando o governo se preparava para começar a pagar os astronómicos estragos da banca, o presidente Ólafur Grímsson decidiu referendar a decisão. Todos os governos europeus, todas as instituições financeiras e quase todas as forças com poder na Islândia, incluindo o governo e a maioria do Parlamento, foram contra a sua decisão. Tal referendo seria uma loucura. De fora e de dentro vieram todas as pressões. Se a Islândia tivesse a ousadia de não pagar seria uma "Cuba do norte". Ficaria isolada. Nem mais um investidor ali deixaria o seu dinheiro. Os islandeses votaram. 92% disseram que não pagavam. E, mesmo depois de um segundo referendo, não pagaram. A reação não se fez esperar. O governo do Reino Unido até se socorreu de uma lei para organizações terroristas, pondo a Islândia ao nível da Al-Qaeda.

A decisão repousava há algum tempo no Tribunal da EFTA. Quando estive na Islândia ouvi, de alguns especialistas, a mesma lengalenga: a Islândia ia acabar por pagar esta dívida. E até lhe ia sair mais caro. Que tinha sido tudo uma enorme irresponsabilidade fruto de populismo político.

continuação disse...

Contrariando a posição de uma equipa de investigação da própria intuição e as temerosas autoridades judiciais da Islândia, que defendiam "um mínimo de compensação aos Governos britânico e holandês", o tribunal da EFTA isentou, esta semana, a Islândia de qualquer pagamento ao Reino Unido e Holanda.

O que estava em causa não era pouco. Era se deve ou não o Estado ser responsabilizado pelos erros dos bancos. E se devem ser os contribuintes a pagar por eles. Claro que a Europa já prepara novo enquadramento legal para atribuir uma maior responsabilização aos Governos pelas quebras no sistema financeiro. Duvido que resulte em maior vigilância ao sistema bancário. O mais provável é dar à banca a segurança que o dinheiro dos impostos cá estará para cobrir os prejuízos das suas irresponsabilidades.

Há coisas imorais que se naturalizam. Usar os dinheiros dos contribuintes para salvar os bancos das suas próprias asneiras foi uma delas. Como me disse o presidente Grímsson, "Temos um sistema onde os bancos podem funcionar como querem. Se tiverem sucesso, os banqueiros recebem enormes bónus e os seus acionistas recebem o lucro, mas, se falharem, a conta será entregue aos contribuintes. Porque serão os bancos tão sagrados para lhes darmos mais garantias do Estado do que a qualquer outra empresa?" Perante isto, os islandeses apenas fizeram o que tinham de fazer. Mas o Mundo está de tal forma de pernas para o ar que o comportamento mais evidente por parte de quem tem de defender os cidadãos e o seu dinheiro parece absurdo.

Afinal, a Islândia saiu-se bem. Saiu-se bem na economia, já abandonou a austeridade, está a mudar a Constituição no sentido exatamente inverso ao que se quereria fazer por cá e manteve a sua determinação em não pagar as dívidas contraídas por empresas financeiras privadas, tendo sido, no fim, judicialmente apoiada nesta decisão. Porque o governo islandês assim o quis? Não. Pelo contrário. Porque as pessoas exigiram e mobilizaram-se. E as pessoas, até na pacata Islândia, podem ser muito assustadoras.

Por cá, o mesmo banqueiro que se estava a afundar (parece que tinha comprado demasiada dívida grega) e que disse que os portugueses "aguentam" mais austeridade, recebeu dinheiro de um empréstimo que somos nós todos que vamos pagar, apresentou lucros excelentes e até vai comprar, imagino que com o nosso próprio empréstimo, dívida nacional. Ou seja, empresta ao Estado o que é do Estado e cobra juros. Porque nós aguentamos.
Palavras-chave

Anónimo disse...

Presidente da Islândia para presidente de Portugal, já.!!!!!!

Anónimo disse...

Fernando Ulrich, o rosto dos banqueiros do BPI, disse há uns tempos que os portugueses "aguentam, aguentam" as medidas de austeridade. Vindo de um banqueiro, de uma linhagem de outros, de alguém que exigiu uma troika quando o BPI pifou, de um estratego desbocado da burguesia que pedia ano após ano a desvalorização dos salários nominais para ganharmos competitividade "chinesa", o repúdio propagou-se e incomodou até as bases governistas. Inspirado, o Ulrich tentou corrigir a frase da celeuma. Que não entendia as incompreensões sobre o "aguentam, aguentam", vários povos tinham aguentado brutais perdas de produto e rendimento, a Grécia lá se aguenta e aqui no Portugal pequeno aguentar é coisa de heróis do mar!

Mas o arrobo genial faltava ainda: "os sem abrigo também aguentam"?! Esta besta acabou de receber no BPI 1.500 milhões de euros de dinheiro dos contribuintes para recapitalização do banco. O banco não aguentava, ia falir. O dinheiro que o Estado lá colocou é superior aos capitais próprios do banco. Como se sabe, o Bloco de Esquerda opôs-se a esta operação de fraude legal e a um empréstimo público numa dimensão que teria significado a compra dos ativos em qualquer lado.

O poder diz-nos sem rebuço que não há dinheiro para apoiar a maioria dos desempregados, nem para aguentar as pensões. Por falar em piegas que não aguentam já sofremos 30% de cortes salariais diretos e indiretos. E o rapaz Ulrich vem insultar a malta toda. Sem abrigo? Afinal os egrégios avós eram destituídos de abrigo. E os donos de Portugal destituídos de tino. Fernando Ulrich é dessa elite que tem parasitado o país e se acha, apesar de tudo, acima dos sem abrigo que somos todos nós.

A arrogância de classe, a pesporrência da sumidade, têm contudo um valor social: indicar sem margem para dúvidas que o troikismo está ao seu serviço, o chamado resgate financeiro é o resgate de uma classe e do capital financeiro. Esta coisa bestial é da turma de amigos do governo PSD/CDS.

Depois disto, creio que se percebe bem a exigência da Convenção do Bloco de Esquerda de que os bancos intervencionados "aguentam" bem uma nacionalização. Um pólo público financeiro, compreendendo a CGD, BCP, BPI, BANIF, é o "banco de fomento" que dinamize o investimento para a economia trazer emprego. O BPI, coitado, é um banco sem abrigo, vamos abrigá-lo no Estado antes que as bestas nos condenem à insolvência ao luar.

Luís Fazenda

José Gonçalves Cravinho disse...

Eu,um simples operário emigrante na Holanda desde 1964 e já velhote (88anos),digo simplesmente que acho sintomático que desde há muito que portugueses com nomes estrangeiros
gregos,italianos,franceses,alemães,
ingleses,holandeses,espanhóis,téem exercido funções governativas e muitos dêles foram até apoiantes da Ditadura clerical-fascista do Estado Novo e continuam sendo apoiantes de Governos da Burguesia reaccionária que oprime o Povo.