sábado, 22 de dezembro de 2012

Três pesos e três medidas


1. Gaspar enganou-se outra vez. De acordo com os dados publicados esta sexta-feira pela Direcção-Geral do Orçamento, a receita fiscal registou durante os primeiros 11 meses deste ano uma variação homóloga negativa de 5,2%. Este resultado é pior do que o verificado até Outubro. Segundo a DGO, a deterioração do ritmo de cobrança fiscal em Novembro deveu-se sobretudo ao facto de não terem sido pagos os subsídios de Natal a parte dos funcionários públicos e pensionistas, afectando o nível de retenções na fonte efectuados. Além disso, em comparação com o ano anterior, não se aplicou agora uma sobretaxa extraordinária de IRS. Para compensar a quebra de receita fiscal originada pelos cortes salariais na Administração Pública, o Governo prepara mais cortes salariais na Administração Pública, despedimentos na Administração Pública e aumento do horário semanal de trabalho na Administração Pública. A Constituição e a democracia estão suspensas até nova ordem.


2. A degradação dos activos tóxicos do BPN que estão nas mãos do Estado não pára de se acentuar. As implicações que isso poderá ter no défice das contas públicas de 2012 ainda não são conhecidas. Fontes ligadas às sociedades veículo, criadas pelo Ministério das Finanças para absorver nos últimos dois anos um total de 5,5 mil milhões de euros em créditos malparados do banco de José Oliveira Costa, garantem que "a situação é crítica" e o número de contratos de empréstimo com hipóteses de virem a ser recuperados é cada vez menor. Segundo informações internas das sociedades veículo, a que o Expresso teve acesso, já há mais de 500 clientes com dívidas superiores a meio milhão de euros em incumprimento total. Ou seja, clientes que já deviam ter liquidado tudo o que devem e que, pelo contrário, deixaram pura e simplesmente de pagar qualquer prestação. Estão em causa três mil milhões de euros e os incumprimentos têm mais de seis meses, mas a sua cobrança judicial tarda. Gaspar falhou  outra vez.


3. Esta é uma história já com um par de semanas e vem ilustrada no vídeo junto. Resumindo-a, os grandes interesses económicos, especialmente aqueles ligados à extracção de petróleo e à energia eólica no Brasil, indignados com a limitação dos seus lucros pela Presidente Dilma, a qual, muito bem, entende que os recursos naturais do seu país não devem enriquecer apenas quem os explora mas também o povo a quem pertencem, resolveram utilizar a ainda prestigiada revista The Economist para pressioná-la a demitir o seu ministro da fazenda. Tudo porque este se enganou na previsão que avançou para o crescimento económico brasileiro e pelas responsabilidades que lhe atribuem no efeito perverso que a "intervenção excessiva" do Estado na economia – é assim que denominam a limitação de lucros atrás referida – tem sobre a "confiança" dos investidores estrangeiros. A Presidente Dilma Rousseff não foi de modas e respondeu-lhes confrontando-os com os muitos Gaspares que por toda a Europa sucessivamente se enganam nas previsões, se envolvem em BPNs e não têm para apresentar nem sombra dos 0,6% de crescimento verificado no Brasil. A única coisa que estes Gaspares sabem fazer é cortar salários e direitos e promover a concentração de riqueza, com os resultados que todos conhecemos. Pelo contrário, no Brasil, o salário mínimo mais do que duplicou na última década, uma subida que começou a reverter a desigualdade endémica fomentada pela anterior longa presença do FMI no país e, para desgosto do grande capital e dos fazedores de opinião ao seu serviço, fez do Brasil mais um exemplo que demonstra que a chave do sucesso económico passa por políticas de combate às desigualdades com uma forte componente social.

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1. Gaspar enganou-se outra vez. De acordo com os dados publicados esta sexta-feira pela Direcção-Geral do Orçamento, a receita fiscal registou durante os primeiros 11 meses deste ano uma variação homóloga negativa de 5,2%. Este resultado é pior do que o verificado até Outubro. Segundo a DGO, a deterioração do ritmo de cobrança fiscal em Novembro deveu-se sobretudo ao facto de não terem sido pagos os subsídios de Natal a parte dos funcionários públicos e pensionistas, afectando o nível de retenções na fonte efectuados. Além disso, em comparação com o ano anterior, não se aplicou agora uma sobretaxa extraordinária de IRS. Para compensar a quebra de receita fiscal originada pelos cortes salariais na Administração Pública, o Governo prepara mais cortes salariais na Administração Pública, despedimentos na Administração Pública e aumento do horário semanal de trabalho na Administração Pública. A Constituição e a democracia estão suspensas até nova ordem.