quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Portugal visto de fora


A tal credibilidade de Portugal "lá fora", segundo o Governo, tão importante para restabelecer a confiança dos mercados, vai fazendo correr rios de tinta por todo esse mundo cruel que nos espreita. Em Espanha, por exemplo, o EL Pais publica hoje um artigo intitulado "O Governo põe à venda Portugal" onde é descrita uma "avalanche de privatizações de empresas emblemáticas, desde a companhia aérea TAP até à televisão pública RTP, com passagem pelos aeroportos e pelos estaleiros de Viana", num  roteiro descrito como um despojamento de soberania que começou há um ano com a venda ao desbarato da EDP. Não escapa nada, nem a perigosa teia de interesses tecida pela figura sinistra de Miguel Relvas em torno de cada negócio, nem a caricatura da situação que vivemos espelhada num jogo jogado por portugueses estupefactos e deprimidos para aliviar o pesadelo dos cortes nos serviços públicos e da brutal subida de impostos num cenário de queda de 3% no produto durante o próximo ano: entre outros objectivos do jogo, ganha pontos quem consiga criar uma teia de interesses, ganhar as eleições e pôr o máximo de dinheiro que possa a salvo em paraísos fiscais. Realmente edificante. É esta a tal credibilidade de Portugal "lá fora" que cá dentro tanto se apregoa estar a crescer a olhos vistos.

Ainda mais vagamente: O acordo de fusão anunciado esta sexta-feira é firmado entre a Sonaecom, a Kento Holding Limited e a Jadeium, sendo estas duas últimas holdings detidas pela empresária filha do presidente de Angola, Isabel dos Santos, que é a maior accionista da Zon. Em Portugal, Isabel dos Santos é ainda accionista da Galp – através da Amorim Energia, em associação com a Sonangol –, do Banco BIC e do BPI.

Um pouco mais ainda: Francisco Louçã e João Ferreira do Amaral fazem parte do grupo de 55 signatários de um manifesto contra as privatizações. Na missiva, salienta-se que as duas empresas são “cruciais para o maior sector exportador nacional, o turismo”, sublinhando que “perder capacidade de controlo deste sistema de acessos e exportações é um golpe na economia nacional”. Em segundo lugar, os signatários apontam o “interesse estratégico para a República”. A venda a 100% da TAP e da ANA, como o Governo prevê nos diplomas de privatização, significa que “Portugal entrega o poder de monopólio sobre os transportes aéreos e os aeroportos a duas empresas estrangeiras, cujos interesses podem ser contrários aos do país”, escrevem. Por último, o manifesto refere que “estas privatizações acentuam o défice e portanto a dívida pública futura” porque a TAP e a ANA “geraram em 2011 meios financeiros na ordem dos 158 e 199 milhões de euros, antes de impostos e outros compromissos financeiros”, explicam, fazendo referência aos resultados operacionais das duas empresas (e não ao seu resultado líquido, que, no caso da companhia de aviação, é negativo).

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