segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Para negociar estão cá eles


Portugal não era a Grécia antes da assinatura do memorando. Continuou a não ser a Grécia mesmo depois de, mês após mês, trimestre após trimestre, os resultados da austeridade imposta pelo memorando serem uma cópia fiel da bola de neve que se foi agigantando na Grécia pela acção das mesmas políticas. Portugal afundava,  a Grécia afundava, mas Portugal não era a Grécia com menos uns meses de austeridade, quer no discurso do Governo, quer no dos “amigos” de Bruxelas.

Entretanto, e saltando segundos resgates  e ameaças de segundos resgates, umas quantas doses adicionais da austeridade respectiva, perdões de dívida necessários e renegociações de dívida desnecessárias, tudo porque Portugal não é a Grécia, bem entendido, mais adiantada do que a portuguesa, a bola de neve grega tomou tais proporções que se tornou impossível fingir por mais tempo que a situação continuava controlada e dentro do  previsto. Com o cenário de bancarrota mais nítido do que nunca, o directório europeu foi forçado a anunciar uma suavização dos juros e das condições de pagamento  da dívida grega. Continuará impagável, mas, ainda assim, tirando a habitual contrapartida de novas doses da mesma austeridade que tem aniquilado as economias grega e portuguesa e, como tal, reduzido a pó a capacidade de pagarem as dívidas respectivas, as novas condições serão mais favoráveis para a Grécia.

Entram então em cena parte daqueles senhores que sempre disseram que Portugal não é a Grécia. Vítor Gaspar e Pedro Passos Coelho afirmaram que Portugal seria beneficiado com o mesmo tipo de medidas, justificando a descoberta com um princípio de igualdade de tratamento de todos os países sob programa de assistência financeira, alegadamente instituído pelos líderes da zona euro em Julho de 2011. Contudo, a outra parte dos senhores que diziam que Portugal não é a Grécia não se comoveu. A França e a Alemanha desaconselharam esta segunda-feira de forma veemente o Governo português a pedir o mesmo tipo de suavização dos prazos de reembolso dos empréstimos europeus e do pagamento dos juros que a zona euro concedeu na semana passada à Grécia. Tudo, evidentemente, porque Portugal não é a Grécia. Tudo, evidentemente, porque quem compra e quem vende tem interesses opostos. Tudo, evidentemente, porque Portugal não é nem a Alemanha, nem a França. E não, não andam distraídos. Pedro Passos Coelho e Vítor Gaspar têm  ainda uns milhões em privatizações e em serviços públicos a desmantelar à sua frente antes de poderem descobri-lo. Tais negócios nunca se fariam e tal agenda política nunca teria pernas para andar sem a bendita austeridade. Quanto pior, melhor. Custe o que custar. O empréstimo que PS, PSD e CDS assinaram com a troika não se tornou impagável de um momento para o outro. É impagável desde o início. 

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Portugal não era a Grécia antes da assinatura do memorando. Continuou a não ser a Grécia mesmo depois de, mês após mês, trimestre após trimestre, os resultados da austeridade imposta pelo memorando serem uma cópia fiel da bola de neve que se foi agigantando na Grécia pela acção das mesmas políticas. Portugal afundava, a Grécia afundava, mas Portugal não era a Grécia com menos uns meses de austeridade, quer no discurso do Governo, quer no dos “amigos” de Bruxelas.