sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Era uma vez uma integração bem comportadinha


Vale a pena prestar atenção aos dados divulgados ontem pelo Eurostat e pelos diversos institutos de estatística nacionais da UE, incluindo o INE, relativos ao PIB por pessoa, em paridade dos poderes de compra dos 27 países da União Europeia em 2011. Este indicador, que mede o que se produz por pessoa levando em conta as diferenças de preços registadas em cada economia, é um dos mais usados para medir e comparar os níveis de bem-estar económico nos diferentes países. 

São vários os mitos que estes números desmentem. Um deles é o das vantagens do comércio livre, nomeadamente com países sem restrições ambientais e com legislações laborais semi-esclavagistas, defendido pelos sucessivos Governos nacionais nas instâncias internacionais, incluindo os seus ímpares europeus, sem exigir quaisquer compensações pela política cambial do euro que tanto nos tem prejudicado. Não valerá de muito referi-los como nossos pares quando, ao contrário do deles, o nosso PIB per capita medido em paridade do poder de compra não tem parado de divergir da média europeia  desde a criação do euro edesde o acordo em sede de Organização Mundial do Comércio, seu contemporâneo, que eliminou as barreiras alfandegárias que protegiam as produções nacionais e europeias. Para cúmulo, como se não bastasse, em vez de exigirem juros mais reduzidos para a nossa dívida, os nossos governantes aceitaram a exposição à especulação que resulta das regras de funcionamento obtusas do BCE, um banco central que empresta aos especuladores a juros reduzidos a liquidez que estes depois revendem aos estados pela exorbitância que melhor remunere a fragilidade de cada um. Podia não ter sido assim. Não pode continuar a ser assim. Desintegração é o que foi até agora. Integração é outra coisa, muito, muito diferente. 

 

No ano passado, Portugal registou um valor equivalente a 77,4% da média dos 27 países da UE, uma descida de 2,9 pontos percentuais face a 2010. De acordo com a série publicada pelo Eurostat, desde 1995, este é o valor mais baixo alguma vez registado (idêntico ao de 2004, 1995 e 1996) e fica cerca de dois pontos percentuais abaixo do que acontecia em 1998. A descida registada em 2011 foi, de longe, a mais forte que se registou desde pelo menos 1995 e revela o efeito de afastamento da média europeia que a actual crise da dívida soberana está a ter sobre o país e, provavelmente, continuará a ter: tanto para este ano como para os próximos, as previsões para o PIB per capita feitas pela Comissão Europeia no seu relatório de Outono apontam para novas descidas acentuadas do PIB per capita português face à média da UE.

1 comentário:

facebook share disse...

São vários os mitos que estes números desmentem. Um deles é o das vantagens do comércio livre, nomeadamente com países sem restrições ambientais e com legislações laborais semi-esclavagistas, defendido pelos sucessivos Governos nacionais nas instâncias internacionais, incluindo os seus ímpares europeus, sem exigir quaisquer compensações pela política cambial do euro que tanto nos tem prejudicado. Não valerá de muito referi-los como nossos pares quando, ao contrário do deles, o nosso PIB per capita medido em paridade do poder de compra não tem parado de divergir da média europeia desde a criação do euro edesde o acordo em sede de Organização Mundial do Comércio, seu contemporâneo, que eliminou as barreiras alfandegárias que protegiam as produções nacionais e europeias. Para cúmulo, como se não bastasse, em vez de exigirem juros mais reduzidos para a nossa dívida, os nossos governantes aceitaram a exposição à especulação que resulta das regras de funcionamento obtusas do BCE, um banco central que empresta aos especuladores a juros reduzidos a liquidez que estes depois revendem aos estados pela exorbitância que melhor remunere a fragilidade de cada um.