segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

As Primaveras e os desencantos


Muita gente se encantou e ainda há quem continue encantado com a chamada Primavera árabe. Passaram dois anos desde o acto de desespero que ateou o rastilho ao barril de pólvora que explodiu depois e o que hoje se verifica é que correu demasiado sangue para quase nada. De pouco serve fazer revoluções sem alicerces sólidos, sem uma organização política forte e coerente,  sem uma cidadania esclarecida e politicamente madura que garanta a subsistência pós-revolução dos ideais que a fizeram acontecer. Também nós, em tempos, fizemos uma revolução para depois deixarmos o país resvalar novamente para as mãos da mesma oligarquia que antes o detinha. Hoje, temos os partidos coerentes e de confiança que faltam aos árabes, mas falta-nos a aquela vontade de mudança que, para acontecer, no nosso caso, dispensaria que sacrificássemos a mais ínfima gota de sangue: vivemos em democracia. Esbanjamo-la num somatório de patetices consubstanciada em lengalengas que falam em políticos todos iguais, em mexericos sobre viaturas de Estado e regalias de detentores de cargos públicos e em imitações facebookianas de Primaveras árabes feitas de panos pretos estendidos à janela e de noites brancas de vela na mão. Votar é que não. Senão, era uma chatice. Mudávamos mesmo. E depois teríamos que continuar a votar para não deixarmos descambar tudo outra vez. Viver em democracia dá muito mais trabalho do que estar atento às promoções do Pingo Doce, não se aprende na telenovela e não é ditado pelos astros. Dá cá uma trabalheira.

4 comentários:

Facebook share disse...

Muita gente se encantou e ainda há quem continue encantada com a chamada Primavera árabe. Passaram dois anos desde o acto de desespero que ateou o rastilho ao barril de pólvora que explodiu depois e o que hoje se verifica é que correu demasiado sangue para quase nada. De pouco serve fazer revoluções sem alicerces sólidos, sem uma organização política forte e coerente, sem uma cidadania esclarecida e politicamente madura que garanta a subsistência pós-revolução dos ideais que a fizeram acontecer. Também nós, em tempos, fizemos uma revolução para depois deixarmos o país resvalar novamente para as mãos da mesma oligarquia que antes o detinha. Hoje, temos os partidos coerentes e de confiança que faltam aos árabes, mas falta-nos a aquela vontade de mudança que, para acontecer, no nosso caso, dispensaria que sacrificássemos a mais ínfima gota de sangue: vivemos em democracia. Esbanjamo-la num somatório de patetices consubstanciada em lengalengas que falam em políticos todos iguais, em mexericos sobre viaturas de Estado e regalias de detentores de cargos públicos e em imitações facebookianas de Primaveras árabes feitas de panos pretos estendidos à janela e de noites brancas de vela na mão. Votar é que não. Senão, era uma chatice. Mudávamos mesmo. E depois teríamos que continuar a votar para não deixarmos descambar tudo outra vez. Viver em democracia dá muito mais trabalho do que estar atento às promoções do Pingo Doce, não se aprende na telenovela e não é ditado pelos astros. Dá cá uma trabalheira.

Anónimo disse...

Assim é o povo português, a gene lusitana. Portugal é o país do fado, o fado que nasce do fardo de se ser português. Mudar essa forma de ser seria substituir este povo por outra coisa qualquer, por outra matriz genética e cultural, e nesse caso já não existiria Portugal. Quando um triste começar a rir e a sorrir constantemente já não será um triste, será outra coisa qualquer.
Viva portugal, terra de patetas alegres, oportunistas bem sucedidos e idealistas desiludidos.

Anónimo disse...

Em relação a termos feito uma revolução, não foi o povo que a fez. As patentes médias e baixas do exército revoltaram-se porque estavam cansados de serem enviados para a guerra do ultramar. O povo saiu à rua para comemorar um acontecimento do qual não tomaram parte, da mesma maneira que teriam saído para comemorar uma vitória no festival da eurovisão ou no campeonato mundial da bola. Não foi uma revolução do povo que saiu à rua, como se assistiu na chamada primavera árabe. Não é justo comparar acontecimentos tão diferentes. As revoluções do povo fazem-se em países com populações jovem, com energia e sem grande coisa a perder. Num país de velhos cansados, desgastados e conformados, onde o povo se identifica com os seus líderes nos vícios e no carácter, não há material combustível para revoluções.

Filipe Tourais disse...

Tanto as árabes como a portuguesa, feitas cada uma à sua maneira, foram revoluções. Não as comparei. Sendo distintas, e concordamos que o são, servem como lições de democracia: as democracias só funcionam com a participação de todos.