domingo, 23 de dezembro de 2012

Afinal, havia outro


Hoje, ficámos a saber que os três partidos que a comunicação social pinta como detentores exclusivos do sentido de Estado e de responsabilidade em Portugal recusaram um programa de "assistência financeira"  muito mais favorável para o nosso país do que aquele que PS, PSD e CDS assinaram de cruz com a troika constituída por FMI, BCE e Comissão Europeia, segundo eles, recorde-se, a única opção possível para evitar a calamidade que o memorando produziu depois. A revelação foi feita pelo coordenador do Observatório das Nações Unidas para a Europa do Sul em entrevista à TSF, na qual descreve que chegou a haver um plano para compra de dívida soberana portuguesa dentro da área da lusofonia, em condições mais suaves do que as exigidas pela Troika, que teve o patrocínio do secretário-geral das Nações Unidas, chegou a ter "luz verde" do governo brasileiro, mas acabou misteriosamente rejeitado por Lisboa. Diz que as nações unidas só vêem uma explicação  para tal recusa: «teimosia ideológica». Mas vai dizendo também que não faz sentido que um país em dificuldades como Portugal pague comissões de 4 e 5 por cento pela mera intermediação do sector financeiro, e chama-lhe agiotagem,  apenas porque se mantém uma regra absurda que impede o Banco Central Europeu de emprestar liquidez directamente aos países.

Não terá sido uma decisão assim tão ingénua. Não existe ingenuidade e não há qualquer mistério  quando está envolvido tanto dinheiro, quando há beneficiários tão evidentes, quando esses beneficiários banqueiros nem se preocupam em esconder as relações promíscuas que mantêm com as três forças partidárias que assinaram o memorando, quando há interesse em criar condições para negócios de privatizações que rendem chorudas comissões a quem os conduz, umas declaradas, outras mais secretas, e, sobretudo, quando existe uma agenda política de desvalorização dos rendimentos do trabalho, sonhada desde o 25 de Abril, com consequências tão duradouras sobre a distribuição da riqueza. Nada disto teria sido possível numa situação de maior desafogo financeiro.

Regressando à entrevista, Artur Baptista da Silva revela as preocupações da ONU com o alastramento da pobreza que tem sido fomentado pelo actual Governo, descrevendo a situação actual, com centenas de milhares depessoas desempregadas e sem direito a qualquer rendimento, como comparável à dos países do Norte de África. E avança com uma saída para a crise: Artur Baptista da Silva afirma que há uma fatia de 41% da dívida soberana portuguesa que foi contraída apenas para que o país, desde 1986, pudesse beneficiar dos fundos estruturais da União Europeia, que nada tem que ver com termos vivido acima das nossas possibilidades, pela qual Portugal está a pagar juros inexplicavelmente altos. As Nações Unidas defendem que o Governo deve exigir novas condições e  Artur Baptista da Silva considera ainda que, perante os efeitos do programa de ajustamento, Portugal tem todo o direito a exigir uma renegociação do memorando de entendimento porque  os juros a pagar pelos 78 mil milhões de euros do resgate são incomportáveis.


Vagamente relacionado: Portugal não é a Grécia, mas a Espanha também não. A Espanha vai ter mais um ano para reduzir o défice público. A meta dos 3% do produto interno bruto (PIB) terá de ser atingida até 2015 - e não em 2014, como estabelecia o anterior quadro europeu. O país vizinho terá, assim, mais um ano do que Portugal para colocar as contas do Estado "em ordem", como a comunicação social alinhada insiste em continuar a chamar à austeridade que põe as contas públicas em completa desordem. O alargamento desta medida a outros países não está excluído, surgindo a França (com uma economia estagnada), a Itália e a Holanda como outros possíveis beneficiários de uma extensão dos prazos de consolidação orçamental. Nenhum deles é a Grécia, que também beneficiou de uma flexibilização ainda maior. A Irlanda também conseguiu uma meta do défice para 2013 de 7,5 %, o que evita a destruição da sua economia.

Ainda mais vagamente: Vale a pena ver com toda a atenção o vídeo junto para não perder nenhum dos nomes  dos senhores do dinheiro que vão ter mais um excelente Natal com os milhões e milhões do BPN que estamos todos a pagar.

4 comentários:

facebook share disse...

Hoje, ficámos a saber que os três partidos que a comunicação social pinta como detentores exclusivos do sentido de Estado e de responsabilidade em Portugal recusaram um programa de "assistência financeira" muito mais favorável para o nosso país do que aquele que PS, PSD e CDS assinaram de cruz com a troika constituída por FMI, BCE e Comissão Europeia. A revelação foi feita pelo coordenador do Observatório das Nações Unidas para a Europa do Sul em entrevista à TSF, na qual descreve que chegou a haver um plano para compra de dívida soberana portuguesa dentro da área da lusofonia, em condições mais suaves do que as exigidas pela Troika, que teve o patrocínio do secretário-geral das Nações Unidas, chegou a ter "luz verde" do governo brasileiro, mas acabou misteriosamente rejeitado por Lisboa. Diz que as nações unidas só vêem uma explicação para tal recusa: «teimosia ideológica». Mas vai dizendo também que não faz sentido que um país em dificuldades como Portugal pague comissões de 4 e 5 por cento pela mera intermediação do sector financeiro, e chama-lhe agiotagem, apenas porque se mantém uma regra absurda que impede o Banco Central Europeu de emprestar liquidez directamente aos países.

Anónimo disse...

Não impede que o resto do seu texto seja verdadeiro, mas esse tal coordenador é falso.

Filipe Tourais disse...

Não será o pormenor mais importante, mas no artigo original lê-se isto: Uma equipa de sete economistas do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento passou o último ano a analisar as economias dos países do Sul da Europa e, no caso português, recomendam que o Governo inicie, de imediato, negociações para rever o memorando de entendimento com a "troika", e renegociar uma fatia de 41% da dívida do país.

Este relatório é o primeiro passo do Observatório Económico e Social das Nações Unidas para a Europa do Sul, uma estrutura que vai ficar instalada em Lisboa durante os próximos dois anos, para avaliar os efeitos da crise em Portugal, Espanha, Itália, Grécia e Malta.

Em entrevista à TSF, o coordenador deste Observatório, o economista Artur Baptista da Silva, revela as preocupações das Nações Unidas com o avanço da pobreza neste ponto do globo, e avança com uma saída para a crise.


É clicar no link do post.

David Fernandes disse...

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