terça-feira, 6 de novembro de 2012

Gostei de ler: "As sementes de Leninegrado"

«Apesar dos inúmeros relatos, são inimagináveis as privações por que passaram os cidadãos de Leninegrado durante o cerco de quase 900 dias feito pelos nazis. Os bombardeamentos, o frio e sobretudo a fome levaram muitos milhares ao desespero e à morte. Conta-se que comeram os pássaros, depois os animais de estimação e os ratos, e que houve episódios de canibalismo. Conta-se também que alguns cientistas morreram famintos por recusarem sacrificar as sementes da colecção planetária de espécies vegetais iniciada pelo grande Nikolai Vavilov, um geneticista que então ia definhando também, mas por delito de opinião, numa prisão a mais de 1000 km do cerco. Na maior parte das versões desta história predomina um entusiasmo corporativo algo fanático, porque não se reconhece sequer que aceitar morrer pela biodiversidade é diferente de não deixar que outros sobrevivam, como seria o desejo de muitos russos prontos a arrombar as portas do instituto de botânica e lançar mão a uma variedade rara de arroz. É esta dualidade que fascina: os cientistas puderam decidir e, por isso, serão heróis ou vilões, para eles não há a paz dos mártires.
Também a paz dos mártires está interdita a este governo. A hábil retórica da “ausência de alternativas” não cola, se até na Leninegrado de 1942 havia alternativas.  Mais vale então assumir-se a ideologia que norteia as escolhas, num “retirar de luvas” para que o combate prossiga com os punhos nus e seja mais breve, a tempo de começarmos de novo e se tentar fazer da crise a tal oportunidade de mudança que nos chegou a iludir. Ninguém sabe quando, com quem e como.  O que sabemos é que o Estado social faz muita falta, aqui e em todo o lado. A própria colecção de plantas de Vavilov que sobreviveu ao cerco a Leninegrado quase se perdeu há dois anos. Devido a uma catástrofe natural? Não. Pela pressão do mercado imobiliário para construir habitações de luxo.» – Vasco Barreto, no I.

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«Apesar dos inúmeros relatos, são inimagináveis as privações por que passaram os cidadãos de Leninegrado durante o cerco de quase 900 dias feito pelos nazis. Os bombardeamentos, o frio e sobretudo a fome levaram muitos milhares ao desespero e à morte. Conta-se que comeram os pássaros, depois os animais de estimação e os ratos, e que houve episódios de canibalismo. Conta-se também que alguns cientistas morreram famintos por recusarem sacrificar as sementes da colecção planetária de espécies vegetais iniciada pelo grande Nikolai Vavilov, um geneticista que então ia definhando também, mas por delito de opinião, numa prisão a mais de 1000 km do cerco. Na maior parte das versões desta história predomina um entusiasmo corporativo algo fanático, porque não se reconhece sequer que aceitar morrer pela biodiversidade é diferente de não deixar que outros sobrevivam, como seria o desejo de muitos russos prontos a arrombar as portas do instituto de botânica e lançar mão a uma variedade rara de arroz. É esta dualidade que fascina: os cientistas puderam decidir e, por isso, serão heróis ou vilões, para eles não há a paz dos mártires.