segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Os custos da tal "estabilidade"

À hora da missa do Padre Marcelo, António José Seguro já andava à solta a dizer que não contem com o PS para ajudar a reduzir o Estado social. Isto a propósito do neologismo "refundar o memorando"empregue no dia anterior por Pedro Passos Coelho, entendido pelo líder socialista como um convite para um entendimento com vista a alterar a Constituição e lido por Marcelo como um "erro monumental" por ser uma proposta que deixa cair o memorando, segundo o “especialista”, o único factor que mantém o PS agarrado ao Governo na tarefa de destruição do país. Marcelo limita-se a valorizar aritméticas. E política é outra coisa, não desvaloriza o resultado dos sucessos do jogo de alianças onde se alicerça esta lógica de análise oferecida semanalmente a uma plateia ávida de soluções, que, naturalmente, não as encontra no politiquês dos Marcelos deixados sozinhos com os seus monólogos, a salvo de qualquer contraditório, e, por isso, põe-se a  desdenhar políticos e políticas, todos por igual.
Se o comentário político que se faz em Portugal e a opinião que dele resulta não fossem um monopólio de Marcelos, seguramente que há muito teria entrado no léxico político a expressão “custos da estabilidade”, essa mesma estabilidade pintada como o fim último da política pelos comentadores do regime, esses mesmos custos que se instalaram nas vidas de todos os portugueses e para os quais sempre alertaram quer os comentadores sem tempo de antena, quer aquela esquerda rotulada de “extrema” pelos que o têm.
Um ano e meio depois, é também o Conselho económico e Social a avisar que Portugal é cada vez mais uma repetição da tragédia grega. Apesar de previsível, isto não se podia dizer há um ano e meio, com eleições à porta, com os três partidos da tal estabilidade com custos a assinarem o memorando do nosso descalabro e com Bloco de Esquerda e PCP a avisarem para o que é hoje uma realidade inquestionável. Há um ano e meio, como hoje, o jogo de percepções era comandado pela teia de coacções tecida pelos homens de mão deste regime que os promove para sobreviver à sombra das percepções que comandam.
Nacionalizaram o BPN porque havia “riscos sistémicos”, venderam o BPN a preço de saldo porque esse era o melhor negócio, assinaram as PPP porque era a solução mais vantajosa para o país, privatizaram a EDP e a REN atrás de uma cortina de fumo e o negócio foi transparente, as posições monopolistas no mercado de combustíveis e da energia têm o país a saque e preparam-se para privatizar outros monopólios devido “à situação que o país atravessa”. A estabilidade filha deste monopólio da opinião já nos custou demasiado cara. Temos uma estação pública de televisão, seria hora de pô-la ao serviço de uma democracia que continua a adoecer com a falta de convivência dos cidadãos com o pensamento livre e plural. Se bem me lembro, é também para isso que existe um serviço público de rádio e televisão pago por todos nós.


Vagamente relacionado: Passos Coelho tem nas mãos um estudo para reduzir os actuais 230 deputados a 181, 191 ou 201. Em qualquer dos cenários de redução, quanto mais pequenos os partidos, mais saem penalizados e quanto mais votados, mais beneficiados. Na simulação para 181 lugares, feita à luz dos resultados eleitorais de 2011, o BE passaria de oito para quatro deputados e a CDU de 16 para 10. O CDS seria menos prejudicado: dos actuais 24 mandatos conservaria 22. O vencedor (neste caso o PSD) fica a ganhar com a mudança. «O partido mais votado é ligeiramente beneficiado e o benefício cresce à medida que a percentagem de votos é maior», regista o estudo.

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Nacionalizaram o BPN porque havia “riscos sistémicos”, venderam o BPN a preço de saldo porque esse era o melhor negócio, assinaram as PPP porque era a solução mais vantajosa para o país, privatizaram a EDP e a REN atrás de uma cortina de fumo e o negócio foi transparente, as posições monopolistas no mercado de combustíveis e da energia têm o país a saque e preparam-se para privatizar outros monopólios devido “à situação que o país atravessa”. A estabilidade filha deste monopólio da opinião já nos custou demasiado cara. Temos uma estação pública de televisão, seria hora de pô-la ao serviço de uma democracia que continua a adoecer com a falta de convivência dos cidadãos com o pensamento livre e plural. Se bem me lembro, é também para isso que existe um serviço público de rádio e televisão pago por todos nós.