sábado, 13 de outubro de 2012

O Nobel do Cinismo


O Prémio Nobel da Paz deste ano voltou a cair em mãos bastante sujas. Receberam-no os autores da austeridade que tem muitos países da Europa a pão e laranjas, impondo-lhes orçamentos de guerra. Uma guerra diferente, cínica, sem cheiro a pólvora ou ribombar de canhões, mas, como qualquer guerra convencional, com muitos milhões de vidas  destroçadas desde que a Europa a declarou aos europeus. A guerra deles é a da recapitalização de bancos falidos pela sua própria delinquência e a da reconfiguração social que melhor serve a concentração de riqueza. A nossa é feita de humilhações sucessivas, de biliões desviados dos mais pobres para os mais ricos, é feita de lutas individuais quotidianas pela sobrevivência, é uma luta colectiva para não deixar que nos roubem o que ainda não roubara do edifício social que custou décadas a construir. E os senhores desta guerra receberam o prémio Nobel da Paz, como se não houvesse no mundo ninguém que o merecesse. Mas há. O insulto não se dirige apenas às vítimas da sua violência laureada, é uma metralhadora que acerta também em todos e todas que se destacam por esse mundo fora com os seus exemplos de abnegação e coragem moldados à imagem de um ideal de espécie humana que a todos deve guiar.

«Na noite de 14 de Fevereiro o pai pegava no rádio uma última vez para ter a certeza que nada tinha mudado, num gesto meio ingénuo, quase ridículo. Na manhã seguinte terminava o prazo dado pelos taliban: mais nenhuma menina poderia ir à escola. Malala, que já era conhecida pela sua luta pelo direito das mulheres à educação, foi. Apesar do medo.

“No caminho para a escola eles podem matar-nos, atirar-nos com ácido para a cara, fazer o que entenderem”, dizia então ao New York Times, que a acompanhava para o documentário Class Dismissed. “Mas eles não podem parar-me, eu vou ter a minha educação.” Tinha 11 anos. No diário que escrevia para o site da BBC Urdu ja nessa altura (que assinava com o nome Gul Makai), descrevia a vida na sua cidade, Mingora, controlada pelos taliban. Insurgia-se sobretudo pelo direito das mulheres à educação. Via outros activistas mortos e exibidos pelas ruas e praças de Mingora, e sabia que um dia poderia chegar a sua vez.

Quando, na terça-feira [passada], regressava da escola, apareceram dois homens armados que a atingiram na cabeça e num ombro. Gravemente ferida, está em estado crítico num hospital militar em Rawalpindi, a recuperar de uma operação à cabeça. Os próximos dias serão cruciais, não se sabe se sobreviverá ou não.

A jovem activista paquistanesa de 14 anos era já um símbolo da resistência contra os taliban do Paquistão – venceu o National Peace Award for Youth, no Paquistão, e foi nomeada para o International Children’s Peace Prize, da Dutch Kids Rights Foundation. (...) Os taliban já garantiram que se sobreviver voltarão a atacar. “Apesar de ela ser nova e uma menina e de os taliban não acreditarem em ataques a mulheres, qualquer um que faça campanha contra o islão e a sharia deve ser morto, segundo a sharia”.» (continua)

Na foto: Durão Barroso, o mordomo da Cimeira das Lajes de Bush, Blair e Aznar, onde se decidiu a invasão do Iraque com uma justificação feita de armas de destruição maciça, das quais, para além das provas insofismáveis de Paulo Portas, nunca ninguém viu vestígios. Quem diria que, passados 9 anos, tal serviçal da causa da guerra seria um dos galardoados com o Nobel da Paz.

3 comentários:

Facebook share disse...

O Prémio Nobel da Paz deste ano voltou a cair em mãos bastante sujas. Receberam-no os autores da austeridade que tem muitos países da Europa a pão e laranjas, impondo-lhes orçamentos de guerra. Uma guerra diferente, cínica, sem cheiro a pólvora ou ribombar de canhões, mas, como qualquer guerra convencional, com muitos milhões de vidas destroçadas desde que a Europa declarou guerra aos europeus. A nossa guerra é feita de humilhações sucessivas, de biliões desviados dos mais pobres para os mais ricos, é feita de lutas individuais quotidianas pela sobrevivência, é uma luta colectiva para não deixar que nos roubem o que ainda não roubara do edifício social que custou décadas a construir. E os senhores desta guerra receberam o prémio Nobel da Paz, como se não houvesse no mundo ninguém que o merecesse. Mas há. O insulto não se dirige apenas às vítimas da sua violência laureada, é uma metralhadora que acerta também em todos e todas que se destacam por esse mundo fora com os seus exemplos de abnegação e coragem moldados à imagem de um ideal de espécie humana que a todos deve guiar.

Anónimo disse...

Não percebo. O Nobel da Paz devia ter ido para os taliban que fizeram 0 11 de Setembro ou que deram um tiro na menina paquistanesa? Para o Bin Laden a título póstumo?

Filipe Tourais disse...

Deixe lá isso, amigo. Tenho a certeza que nunca perceberá, mesmo.