segunda-feira, 8 de outubro de 2012

O centrão e a causa dos 2 euros

Há dias, escrevia sobre as reviravoltas que sinto no estômago quando verifico como a mesma ignorância que nos foi trazendo até aqui ao longo das últimas três décadas se propaga nas redes sociais, por e-mail e em conversas de café, reproduzindo-se numa mensagem que é um cofre de estupidez em si mesma: "os políticos são todos iguais", "eles querem é tacho" e "por isso, eu não voto". Não é a estes demitidos que devemos a inconstitucionalidade do roubo de subsídios de férias e de Natal. Aliás, se os nossos presentes e os nossos futuros dependessem destes acidadãos, que, entre outras extravagâncias, defendem a redução do número de deputados na AR, aqueles não iguais que, em nosso nome, requereram essa inconstitucionalidade, não teriam sequer sido eleitos e os roubos respectivos, apesar de roubos, porque os ladrões estão em grande maioria, estariam em perfeita conformidade com a Lei. E o que é que podemos fazer-lhes? Os políticos são todos iguais porque os políticos são todos iguais, não há argumentos que os façam mudar de ideias.
Justamente, António José Seguro, um desses políticos todos iguais que se recusaram a assinar o requerimento de fiscalização sucessiva do OE 2012, que resultou na declaração de inconstitucionalidade acima referida, deu-se conta do mesmo activismo inteligente, mas tem um estômago diferente do meu. Não lhe importa que a grande maioria daqueles que advogam a nobre causa dos políticos todos iguais nem sequer se digne a votar. Pelo contrário, é essa abstenção que mais favorece os partidos daqueles iguais, com eleitorados do tipo claque de futebol e máquinas eleitorais bem oleadas que, toda a gente finge não ver, não raras vezes prestam o serviço de transporte até à urna de voto em dias de eleições. Para estes partidos, a política resume-se ao poder pelo poder, como mantê-lo, como ampliá-lo e como conservá-lo, independentemente de tudo o resto. Nesta medida, e a confirmá-lo, identificada a onda, António José Seguro abraçou a causa da redução do número de deputados, manifestando toda a abertura para negociá-la com o outro partido que tem toda a vantagem em ver-se livre daqueles menos iguais que lhes fazem frente no parlamento. À falta de melhor, com ambos os partidos a descerem vertiginosamente nas sondagens, há que tentar solucionar o problema na secretaria enquanto ainda é tempo, fazendo uso de um número de mandatos que hoje claramente não lhes seria confiado novamente.
Convirá fazer contas e responder ao argumento dos custos, um dos mais frequentes no meio deste movimento pro-amputação da democracia plural e representativa que a sua alergia à mudança e à participação na vida democrática se recusa a alterar pelo voto. O Parlamento custa aos portugueses pouco mais de 95 milhões de euros anuais. Admitindo que uma redução do número de deputados de 230 para 180 seja acompanhada de uma diminuição naquele valor na mesma proporção, hipótese tomada propositadamente para esticar esta "poupança" a um máximo que nunca se obteria porque existem outros custos que não apenas o dos salários dos deputados, tal redução da democracia traduzir-se-ia numa redução de menos de 21 milhões de euros anuais nas despesas de funcionamento da AR, ou seja, estamos a falar numa "poupança", na melhor das hipóteses, de menos de 2 euros por habitante. É isto que faz correr tantos pontos de exclamação nas redes sociais e nos mails que circulam por aí. É atrás disto que anda um PS que desafia o parceiro PSD a fazer o mesmo. Os deputados “a mais” cederam ao populismo. Convém-lhes este esbanjamento de representatividade que faria desaparecer os partidos mais pequenos. À democracia conviria que os portugueses os retirassem do Parlamento usando as armas que essa mesma democracia nunca lhes negou. A causa dos 2 euros é a mesma da perpetuação no poder daqueles que há quase quatro décadas enriquecem acima das nossas possibilidades.

3 comentários:

Facebook share disse...

O Parlamento custa aos portugueses pouco mais de 95 milhões de euros anuais. Admitindo que uma redução do número de deputados de 230 para 180 seja acompanhada de uma redução naquele valor na mesma proporção, tal redução da democracia traduzir-se-ia numa diminuição de menos de 21 milhões de euros anuais nas despesas de funcionamento da AR, ou seja, estamos a falar numa "poupança", na melhor das hipóteses, de menos de 2 euros por habitante. É isto que faz correr tantos pontos de exclamação nas redes sociais e nos mails que circulam por aí. É atrás disto que anda um PS que desafia o parceiro PSD a fazer o mesmo. Os deputados “a mais” cederam ao populismo. Convém-lhes este esbanjamento de representatividade que faria desaparecer os partidos mais pequenos. À democracia conviria que os portugueses os retirassem do Parlamento usando as armas que essa mesma democracia nunca lhes negou. A causa dos 2 euros é a mesma da perpetuação no poder daqueles que há quase quatro décadas enriquecem acima das nossas possibilidades.

Gi disse...

Filipe, o raciocínio dos 2 euros não é o mesmo que outros fazem para dizer que é preciso baixar o ordenado dos muitos que ganham pouco, porque o dos poucos que ganham muito faz pouca diferença?

Quanto ao número de deputados, uma nova lei eleitoral teria de redefinir a proporcionalidade de modo a dar voz aos partidos mais pequenos.

Filipe Tourais disse...

Não, GI, não é. Estamos a falar duma redução com um objectivo de equilíbrio das contas públicas. 21 milhões não aquece nem arrefece. A menos que estejamos a falar no poupar por poupar, e aí são os austeritários que estão a ganhar a batalha da lavagem cerebral aos portugueses.
Da minha parte, digo-lhe, são dos dois euros mais bem investidos do todo que pago. Por apenas 2 euros consegui que um roubo de 2 mil milhões de euros não se perpetuasse no tempo para todo o sempre. Oxalá todos os dois euros que pago tivessem um retorno tão grande.