segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Aulas práticas sobre voto útil: a rua tem voz no Parlamento


O PCP e o Bloco de Esquerda anunciaram nesta segunda-feira que vão apresentar moções de censura ao Governo. Não uma única, como ontem chegou a ser ventilado, duas, cada partido a sua. Não houve a desejável convergência que melhor serve os desafios do momento presente. É pena. Ainda assim, parecem-me perfeitamente oportunas. Se há partidos que se limitam à auto-representação, também os há que não se esqueceram que a sua razão de existir é dar voz aos seus representados. E na rua circulam imensas questões cujas respostas se tornam cada vez mais urgentes.

Obviamente que o Governo não cairá directamente por efeito de nenhuma destas moções. Garantem-no os votos e as abstenções que produziram o número e a tradição de obediência dos deputados dos partidos que o sustentam. Porém, indirecta e não imediatamente, poderá contribuir decisivamente para que o poder mude de mãos. Arrisco-me a crer que o actual Governo está destinado a cair pela acção da contestação social que cresce nas ruas e esta, por sua vez, é função das percepções que o debate proporcionado pela apresentação de ambas as moções tornará ainda mais nítidas. O Governo sentirá a desconfiança de um país inteiro – trabalho, empresas e até os próprios militantes de base dos respectivos partidos  – a fazer ferver o chão debaixo dos seus pés. Serão visíveis o seu nervosismo, a sua falta de soluções, a sua insensibilidade, a sua completa incompetência. Será perceptível que sabe perfeitamente que o seu tempo está a expirar. A Comissão Europeia também o sabe, a avaliar pela ameaça que hoje deixou no ar pela voz de um patriota sem outro argumento melhor do que uma ameaça feita com a tranche de Outubro do memorando do nosso descalabro.

Por fim, e voltando à guerra de percepções, uma delas, porventura a mais importante de todas, é a de que a rua tem voz no Parlamento. António José Seguro há-de estar, senão mais, pelo menos tão nervoso como o Governo. O PS será obrigado a mostrar de que lado está. E, desta vez, não poderá arriscar-se a fazer como em todas as anteriores: não será com as tretas do costume que convencerá a rua de que uma dessas vozes é a sua.  Nessa medida, e porque qualquer posição que assuma terá elevados custos políticos, não surpreenderia que de ambas as moções, em vez da mais do que improvável queda do Governo, resultasse ou uma fractura no PS ou  uma mudança de liderança. Ou até ambas.

1 comentário:

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Obviamente que o Governo não cairá directamente por efeito de nenhuma destas moções. Garantem-no os votos e as abstenções que produziram o número e a tradição de obediência dos deputados dos partidos que o sustentam. Porém, indirecta e não imediatamente, poderá contribuir decisivamente para que o poder mude de mãos. Arrisco-me a crer que o actual Governo está destinado a cair pela acção da contestação social que cresce nas ruas e esta, por sua vez, é função das percepções que o debate proporcionado pela apresentação de ambas as moções tornará mais nítidas.