quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Algumas notas sobre o PEC X (é o 10, não é?)


1. Vítor Gaspar orgulha-se do resultado das políticas do seu Governo sobre as contas externas. Da redução das importações que traduz a maior obra do actual Governo, a miséria generalizada em crescimento acelerado, e do ligeiro aumento registado nas exportações a que tais políticas são completamente alheias, antes traduzindo a sorte que temos em não haver Gaspares do seu calibre com idênticas irresponsabilidades nos mercados de destino.

2. Como prova de um trabalho com resultados visíveis, Vítor Gaspar mostrou-se orgulhoso por poder apresentar a diferença orçamental entre receitas e despesas sem contar com os juros que pagamos aos credores externos. Tal diferença apenas mostra, por um lado, o autêntico roubo que todos estamos a pagar pela subserviência de três partidos que assinaram um memorando que deixou a fixação da taxa de juro ao livre critério dos bons samaritanos da troika, isto é, quem recebe decidiu quanto iria receber, e, por outro, os cortes salariais na função pública e nas pensões de reforma decretados em 2011 por José Sócrates,  o roubo de subsídios de férias e de Natal aos mesmos funcionários públicos e pensionistas e o desmantelamento em curso dos nossos serviços públicos.

3. Vítor Gaspar anunciou um aumento brutal de impostos que chega aos 30% na tributação de rendimentos do trabalho. Repetiu o imposto extraordinário que havia sido anunciado como roubo irrepetível no ano passado e fez o mesmo à inconstitucionalidade do roubo de subsídios de férias e de Natal deste ano a funcionários públicos e pensionistas, aplicando a um deles um truque de esperteza saloia para convencer a sua almofada que sobre ela repousa diariamente a cabeça de um génio.

4. E só um génio para admitir que em 2013 o consumo interno cairá menos do que caiu em 2012 com um rendimento disponível das famílias ainda sem as subtracções anunciadas.

5. A mesma genialidade que prevê que com tal consumo a economia retomará o crescimento a partir do segundo trimestre de 2013.

6. E que, como tal,  a taxa de desemprego em 2013 será de apenas 16,4%. Segundo o EUROSTAT, a taxa de desemprego era já de 15,9% em Agosto. Entretanto, já estamos em Outubro, a sazonalidade que amorteceu o aumento ainda assim brutal verificado em Agosto já é passado, tal como Setembro, o mês em que os milhares de portugueses que conseguiram trabalho nos meses de Verão se vêem novamente em situação de desemprego. Com toda a certeza que já ultrapassamos a previsão de Gaspar para 2013 e isto, para além dos dramas vividos por 1,3 milhões de portugueses, é mais grave do que parece: temos um Ministro das Finanças que soma às confusões anteriores uma que é absolutamente básica, entre o presente e o futuro.

7. Vítor Gaspar referiu-se a um aumento brutal no IMI. O Governo andou a pagar 2,50 euros à hora a avaliadores cuja missão foi a de inflacionar o valor matricial de imóveis que, naesmagadora maioria, nem sequer visitaram. Isto num momento em que os valores de mercado observam variações de sinal contrário e em que quem queira vender o seu imóvel não tem quem o compre: por não haver crédito, o mercado está completamente parado.

8. Vítor Gaspar voltou  a ser bastante vago quanto à carga fiscal a aplicar a quem pouco ou nada contribui para a sociedade onde enriquece. Entre os que nada pagam, e voltando ao IMI, registe-se que o maior proprietário imobiliário do país irá continuar isento em 2013. A Igreja Católica há-de estar a respirar de alívio por voltar a não pagar uma pevide pelo seu vastíssimo património. Tal como todos os outros isentíssimos do regime, bem poderia  convocar uma conferência de imprensa onde esboçasse um "obrigado, portugueses, por pagarem o que nos caberia caso houvesse justiça fiscal neste país". A boa educação ainda não é pecado. Acho eu.
9. Termino com um detalhe que me impressionou imenso por ser uma boa medida da loucura deste Governo: Vítor Gaspar referiu-se a 2014 e às próximas duas avaliações da troika como se planeasse permanecer no lugar até lá e como se fosse possível ao actual Governo continuar em funções depois desta última "dificuldade de comunicação". A rua já lhes está a encomendar os futuros. Agora é que isto vai começar a aquecer.

3 comentários:

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3. Vítor Gaspar anunciou um aumento brutal de impostos que chega aos 30% na tributação de rendimentos do trabalho. Repetiu o imposto extraordinário que havia sido anunciado como roubo irrepetível no ano passado e fez o mesmo à inconstitucionalidade do roubo de subsídios de férias e de Natal deste ano a funcionários públicos e pensionistas, aplicando a um deles um truque de esperteza saloia para convencer a sua almofada que sobre ela repousa diariamente a cabeça de um génio.

Anónimo disse...

Caro Filipe Tourais,
Na sua perspectiva, qual seria a alternativa a este "roubo" e "subserviencia" à Troika?

Obrigado.

Filipe Tourais disse...

Caro amigo, basta ler o post. As alternativas estão implícitas em todos os pontos. Olhe, desde logo, renegociar o empréstimo que os três campeões de responsabilidade e sentido de Estado não se dignaram a negociar. Poderia bem ser um empréstimo nos mesmos moldes do que foi concedido à Alemanha em 1953, ao mesmo juro a que o BCE empresta aos bancos e com pagamentos indexados às nossas exportações por forma a que não nos asfixiem e nos deixem crescer.
Outro aspecto importante é a distribuição dos sacrifícios por quem está a passar ao lado de qualquer contribuição. Também pode ler isso no post.
Mas, se quiser um pouquinho mais longe, pode ler sobre o caso islandês. É um caso de sucesso comprovado: já regressaram aos mercados e crescem como em mais nenhum outro país europeu, tudo isto apesar de terem corrido com os governantes que os desgraçaram e de terem posto os credores à espera.

PS. Para a próxima ponha-se nome, não gosto de responder a anónimos.