terça-feira, 18 de setembro de 2012

Um enorme problema de comunicação


Sucedem-se as sequelas do 15 de Setembro no Governo. Já antes assistimos à disputa entre Pedro Passos Coelho e Paulo Portas, com o primeiro a tentar por todos os meios passar a ideia de que a medida anunciada foi previamente preparada com o segundo e este, desde o início, a dar o seu pior para fazer constar o contrário. Ficaram longe do pretendido e apenas conseguiram deixar no ar a ideia de que falaram sobre o assunto por alto e sem a cautela de medir-lhe a importância.

Sábado, as manifestações. Paulo Portas quis ver com os próprios olhos quantos sairiam à rua para construir o que diria depois. A comunicação ao país de Domingo foi feita com os gritos de um milhão nas ruas a atiçar-lhe o instinto de sobrevivência e a iluminar-lhe o vazio da lealdade. Segundo a versão apresentada, a transferência dos encargos de Segurança  Social de empregadores para empregados foi da exclusiva responsabilidade do Governo PSD, do qual, ficámos a saber, porque não se fundiu com o PSD, o CDS faz parte na qualidade de oposição interna. Nas suas palavras, a medida em causa é "inaceitável", termo que, e sublinhe-se a responsabilidade semântica de Portas,  passou a significar "aceitável desde que deixem o CDS permanecer no Governo à margem do desgaste causado por medidas impopulares". Nem a Língua portuguesa está a sobreviver à fúria reformista do actual Governo.

E, já hoje, depois de alguns dos poucos que permaneceram fieis no seu posto no exército de agentes da situação que presta ao Governo o serviço de amansamento das respectivas plateias terem tentado resumir toda a questão a um problema de comunicação, após o fracasso deste que é conhecido como o último dos argumentos utilizado para salvar Governos moribundos, alguém fez transpirar a notícia de que três ministros, Paula Teixeira da Cruz, Miguel Macedo e Paulo Macedo, pelo mesmo argumento das dificuldades de comunicação e pelo da legitimidade democrática que tais dificuldades poderiam abalar,  tentaram demover Pedro Passos Coelho pouco antes do anúncio que deixou o país em polvorosa, ao contrário da menina bonita centrista Assunção Cristas, que, interpelada sobre o assunto pelo próprio Primeiro-ministro,  não levantou nenhum obstáculo.

Ainda temos Governo? Formalmente, sim. Mas enquanto equipa coesa, com um projecto comum pelo menos na aparência, com confiança recíproca  e a falar a uma só voz, definitivamente, já não. Já nem PSD nem CDS, internamente, falam a uma só voz. Em cada um dos dois partidos, respira-se desconfiança entre facções. E existe um problema de comunicação, é verdade, enorme, o problema de comunicação que, desde o início, sempre obstou a que o Governo ouvisse o descontentamento de um povo que o elegeu e viu, uma após outra,  rasgadas em mentiras mais do que muitas promessas eleitorais que determinaram os votos de quem lhes confiou o poder nas mãos.
 
Hoje, a narrativa oficial aponta para uma tal legitimidade democrática alegadamente perdida numa única comunicação ao país. Numa só, um lapso, infeliz e irrepetível, que deitou tudo a perder dum excelente trabalho desenvolvido para o bem de todos. ? São uns criativos. Falam assim da legitimidade que o Governo perdeu imediatamente assim que tomou posse, quando fez exactamente o mesmo que tinha feito a desonestidade de um Sócrates que pintavam como a inversa do somatório de seriedade da dupla Passos-Portas. A ilegitimidade que Cavaco Silva apadrinhou. A ilegitimidade que é tradição de três partidos chamados "do arco" e que um milhão que saiu à rua e muitos mais que ficaram em casa hão-de saber como varrer dos comandos dos seus destinos. Custe o que custar.

Estará o Governo convencido de que conseguirá recuperar a confiança dos portugueses? Acaso pensarão que a indignação terminou no dia em que ganhou as proporções de um Sábado que não voltará a repetir-se? Cá está ele. É realmente um enormíssimo problema de comunicação.

(editado)

1 comentário:

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Hoje, a narrativa oficial aponta para uma tal legitimidade democrática alegadamente perdida numa única comunicação ao país. Numa só, um lapso, infeliz e irrepetível, que deitou tudo a perder dum excelente trabalho desenvolvido para o bem de todos. ? São uns criativos. Falam assim da legitimidade que o Governo perdeu imediatamente assim que tomou posse, quando fez exactamente o mesmo que tinha feito a desonestidade de um Sócrates que pintavam como a inversa do somatório de seriedade da dupla Passos-Portas. A ilegitimidade que Cavaco Silva apadrinhou. A ilegitimidade que é tradição de três partidos chamados "do arco" e que um milhão que saiu à rua e muitos mais que ficaram em casa hão-de saber como varrer dos comandos dos seus destinos. Custe o que custar.