domingo, 30 de setembro de 2012

O segundo BASTA (desta série)


Foi bonito de ver. A interminável caravana de autocarros na auto-estrada que rumavam a Lisboa. Depois, o Terreiro do Passo foi-se enchendo, enchendo, enchendo. Ficou cheio como um ovo. Ninguém quis perder a oportunidade de mostrar o seu descontentamento, a sua necessidade de mudança, o seu desejo de poder voltar a sonhar com um futuro melhor. Nenhum órgão de comunicação se atreveu a avançar com uma estimativa do número de descontentes que produziu aquela multidão.
 

 
Também estive lá. Quis a organização que reencontrasse por ali o mesmo tipo que animava as manifestações que presenciei em 1975, quando ainda tinha palmo e meio e o meu pai não me largava a mão. Sim, era ele, tenho a certeza. Já não me lembrava como era a sua cara, mas reconheci-o pela inconfundível cassette que ainda gira nas suas entranhas e cujas palavras de ordem ainda saem pela sua boca, indiferentes ao facto das cassettes serem hoje um anacronismo tecnológico dificílimo de encontrar nas lojas.

A CGTP dá-se ao luxo de continuar a usá-las, esbanjando as adesões futuras de todos os que não se revêem no seu chorrilho de palavras de ordem cristalizado no tempo. É pena. Desunem pela forma uma unidade naturalmente alcançada pelo conteúdo. Sobretudo em manifestações como a de ontem, que se queria de todos e não apenas da CGTP, desejavelmente uma alavanca para organizações futuras, poderiam ter poupado os "o que é isto?" que circulavam nos olhares incrédulos que se cruzavam mal começou aquele missal a duas vozes do início da manifestação. Existem outras formas de comunicar mais elegantes, mais subtis, mais abrangentes e mais eficazes. E menos martirizantes.

5 comentários:

Facebook share disse...

Foi bonito de ver. A interminável caravana de autocarros na auto-estrada que rumavam a Lisboa. Depois, o Terreiro do Passo foi-se enchendo, enchendo, enchendo. Ficou cheio como um ovo. Ninguém quis perder a oportunidade de mostrar o seu descontentamento, a sua necessidade de mudança, o seu desejo de poder voltar a sonhar com um futuro melhor. Nenhum órgão de comunicação se atreveu a avançar com uma estimativa do número de descontentes que produziu aquela multidão.

Gi disse...

É verdade, Filipe, aquele discurso dava vontade de desmobilizar imediatamente. Há gente que não aprende nada.

desculpeqqc disse...

é o país que temos

Maquiavel disse...

Em vez de referirem que pela primeira vez os polícias se juntaram a uma manifestaçäo, os derrotistas e envergonhados gostam de dizer que ai e tal foi um fracasso, afinal a de 15 tinha mais gente.
Pois é, em 11 milhöes de portugueses 1 milhäo saiu à rua. 10%.
No Terreiro do Povo estavam 100 mil, diz o Público. A CGTP terá 1 milhäo de "sócios"? Isso queria o Arménio!
A CGTP chamou toda a gente. Quem quis ir, foi. E muito bem, que quando os troykos roubam näo perguntam se se tem cartäo do sindicato.

As derrotistas e envergonhados:
- säo sindicalizados?
- se säo, alguma vez apresentaram listas a eleiçöes?
- já tentaram perceber porque é que nos países nórdicos 60% ou mais dos trabalhadores säo sindicalizados, mesmo se menos de 50% votam na Esquerda?
- já tentaram perceber porque é que os países onde há melhor nível de vida e mais desenvolvimento tecnológico säo aqueles onde há maior nível de sindicalizaçäo?
- já tentaram perceber que o que a CGTP reivindica desde há 30 anos (a tal K7) é apenas o que se faz nos países civilizados, ricos, avançados do Norte da Europa há 40 anos, mesmo naqueles em que os socialistas näo governaram?

Filipe Tourais disse...

Não deve ter percebido. Eu não fiz comparações, não disse que não volto a comparecer nem disse que me arrependi de ter ido. Se ler outra vez, espero que entenda a mensagem: gostava que a CGTP reformulasse a sua estratégia de comunicação para que os que lutam sejam cada vez mais. Os sindicatos que menciona terem bastante mais adesão com toda a certeza que já fizeram esse trabalho e já deitaram fora as cassettes.