quarta-feira, 12 de setembro de 2012

De volta

.Regressamos. Onde, mesmo,  é que tínhamos  ficado? Ah, sim, já me lembro. O consumo estava a contrair-se como nunca, o produto encolhia como nunca, o desemprego crescia como nunca e ia batendo máximos sucessivos e, apesar da dimensão  da tragédia, a grande maioria dos portugueses  estava plenamente convencida de que a austeridade se iria ficar por onde estava, havendo mesmo quem acreditasse piamente que os apregoados sucessos do Governo no cumprimento de tudo o que lhe era oferecido desmantelar, quer pela troika, quer pela passividade geral, haveria, um dia, de salvar o país.

 

Um dia que não quis amanhecer em Agosto. A situação do país agravou-se dramaticamente em todos os aspectos, em todos os ângulos, em todas as frentes. E chegou Setembro, mês outrora longínquo apontado pelos salvadores como candidato a ponto de inflexão na longa série de meses sempre a afundar, cada vez mais e mais rapidamente.

 

Porém, aconteceu, continuou  a acontecer, exactamente como, desde o início, o haviam vaticinado os então apelidados de "irresponsáveis" e "radicais", tão desprovidos do "sentido de Estado" que sobrava aos três partidos que assinaram o memorando de entendimento ao ponto de se terem recusado a participar no simulacro de salvamento de 38 anos de políticas e negociatas da autoria dos mesmos três que se punham de acordo quanto à estratégia para nos salvar de si mesmos. UM salvamento  que, com a preciosa ajuda de um ocupante externo tricéfalo, que não teve dificuldades em convencer os locais a assinarem de cruz um contrato que nem sequer quantificava os juros posteriormente fixados, unilateralmente e sem qualquer espécie de negociação, ao nível de uma exorbitância impossível de pagar, poria o país a salvo dos próprios, PS, PSD e CDS, ao mesmo tempo que garantia o contributo português para o salvamento de um sector financeiro europeu falido pela sua própria delinquência e ávido de generosidades nascidas da usurpação de poderes de representação conferidos pela democracia.

 

Assim, porque o rendimento disponível das famílias se reduziu drasticamente pela mão  da austeridade, o consumo caiu a pique, o mercado interno deixou de absorver a produção a ele destinada, centenas e centenas de empresas faliram e fecharam portas, milhares e milhares de portugueses perderam os seus empregos, o desemprego disparou e o produto encolheu. Como não poderia deixar de acontecer, este cenário dantesco reflectiu-se nas contas públicas, com as receitas fiscais a traduzirem a retracção do consumo, do emprego  e da actividade económica e a despesa  a resvalar  ao ritmo do crescimento do desemprego. E Setembro já corria no calendário, demasiado próximo do final do ano para continuar a fingir que a meta orçamental de um défice abaixo dos 4,5% do PIB seria atingida e demasiado próximo do 15 de Outubro, que corresponde ao dia em que o Governo vai ao Parlamento explicar ao país o que fará com o seu dinheiro no ano seguinte, para que o mesmo pudesse continuar a esconder por mais tempo as novas doses daquele remédio que mata e faz sofrer por si reservadas para o seu povo.

 

Chegou, portanto, a hora do inevitável anúncio. Primeiro, na Sexta-feira, em nome de uma concentração de riqueza potenciada pela austeridade, falou a voz de uma equidade muito particular que sempre deixa fora de qualquer sacrifício  todos os rendimentos que não os do trabalho. Mais austeridade para quem vive do seu trabalho. Desta vez, o anúncio incluiu, não apenas a manutenção, também o aumento dos cortes salariais na função pública, recentemente declarados inconstitucionais pelo TC, como ainda o seu alargamento aos trabalhadores  do sector privado, que souberam que, em 2013, irão substituir as respectivas entidades patronais no pagamento de 5,25% dos 23,75% da sua actual responsabilidade social obrigatória, uma redução salarial à qual acrescerá um agravamento de 1,75 que irão direitinhos para uma Segurança Social que ainda por cima diminuiu drasticamente as contraprestações  de protecção social, direitos adquiridos através de tais descontos.

 

A mesma voz falou na Terça-feira, desta feita com boca de Ministro das Finanças, para explicar a inexplicável manutenção de uma estratégia que nunca funcionou em lado nenhum e, naturalmente, também está a fracassar em Portugal, e para concretizar o que a boca que falou na Sexta-feira deixou em aberto: uma lista de medidas de carácter simbólico cuja única finalidade é a de dar a ideia de uma repartição de sacrifícios que, ainda que a receita fiscal dela resultante fosse multiplicada pela centena, permaneceria a anos luz da equidade sugerida por quem a anunciou.

 

Entre e depois de ambas as comunicações, as reacções. O protesto veemente de quem sempre defendeu que a trilha austeritária seria o suicídio económico e social que se tem vindo a consumar, contra o qual pouco pôde fazer pela falta de votos que um povo que não lhes deu ouvidos também não quis confiar-lhes. . A surpresa e a indignação geral, incluindo a daqueles que continuam a desconfiar dos primeiros e a considerá-los iguais a quem os brindou com novo apertão. A hesitação e as meias palavras lado a lado com o protesto inequívoco no partido da oposição que assinou o memorando, agora definitivamente estilhaçado. O tacticismo hipócrita de um parceiro de Governo habilmente ausente no Brasil no momento do anúncio, à espera de ver como param as modas para maximizar os dividendos políticos que retirará da reacção que ainda não expressou. Entre os indefectíveis apoiantes e representantes do Governo na comunicação social, entre o exército de barões retirados da vida política activa pertencentes aos seus dois partidos, no meio empresarial e até no eleitorado crónico dos três signatários do memorando, as manifestações de desagrado e as retiradas de confiança política sucederam-se. Aparentemente, o unanimismo que se verificou até agora parece definitivamente desfeito.

 

O que acontecerá a partir de agora é uma incógnita. Como assegurado, temos que PSD, CDS e PS contarão com a falta de memória dos eleitorados respectivos para saírem o mais airosamente que lhes seja possível deste solavanco. Os comentadores de serviço, até agora a claque mais visível da austeridade,  contarão com a mesma falta de memória das suas plateias para recuperarem a parcela de credibilidade perdida ao longo de meses e meses a fio dedicados ao elogio de um desastre que cresceu diante dos seus olhos, dizendo-lhes o que  o seu instinto de sobrevivência cheire seja da preferência mais abrangente.  Valerá a pena prestar toda a atenção a aproveitamentos da emotividade despertada pelo presente para a ocultação do futuro mais próximo: o Governo realinhou as metas orçamentais para 2013 e 2014, respectivamente, para 4,5 e 2,5% do PIB, ambas bastante abaixo do novo objectivo orçamental de 5% agora anunciado para este ano, o que significa, com um produto assumida e irremediavelmente a encolher, nada mais, nada menos, que haverá sucessivas novas doses de austeridade, cada uma delas  com um grau de violência proporcional à respectiva quantificação em percentagem do PIB.

 

Como incerto, temos a reacção de um povo pouco habituado a sair do seu embotamento e a dar o melhor uso a uma democracia feita para funcionar com a participação de todos. Poderemos ter, e oxalá assim seja, uma reacção firme nas ruas. Seria óptimo que esta depois se materializasse nas urnas de forma a possibilitar uma alternância que se torna cada vez mais urgente com o passar dos dias e dos anos de conquistas perdidas nas mãos de um poder político distanciado do interesse público e prostituído a clientelas melhor ou pior identificadas.


Para já, fiquemos à espera do que fará aquela espécie de Presidente da República que deixámos eleger sobre o fantasma do BPN e de outras negociatas com o Orçamento para 2013 e, depois disso, volte ou não a fechar os olhos, do que dele fará o Tribunal Constitucional. Ajudemo-los a respeitar-nos. A luta começa imediatamente. Devolvam-nos as nossas vidas. A próxima manifestação está marcada para o próximo Sábado em várias cidades de Norte a Sul de Portugal. Encontramo-nos por lá.

3 comentários:

FB Request disse...

Entre e depois de ambas as comunicações, as reacções. O protesto veemente de quem sempre defendeu que a trilha austeritária seria o suicídio económico e social que se tem vindo a consumar, contra o qual pouco pôde fazer pela falta de votos que um povo que não lhes deu ouvidos também não quis confiar-lhes. . A surpresa e a indignação geral, incluindo a daqueles que continuam a desconfiar dos primeiros e a considerá-los iguais a quem os brindou com novo apertão. A hesitação e as meias palavras lado a lado com o protesto inequívoco no partido da oposição que assinou o memorando, agora definitivamente estilhaçado. O tacticismo hipócrita de um parceiro de Governo habilmente ausente no Brasil no momento do anúncio, à espera de ver como param as modas para maximizar os dividendos políticos que retirará da reacção que ainda não expressou. Entre os indefectíveis apoiantes e representantes do Governo na comunicação social, entre o exército de barões retirados da vida política activa pertencentes aos seus dois partidos, no meio empresarial e até no eleitorado crónico dos três signatários do memorando, as manifestações de desagrado e as retiradas de confiança política sucederam-se. Aparentemente, o unanimismo que se verificou até agora parece definitivamente desfeito.

Cravo disse...

Seja benvindo de volta!
Isto foi a gota de água e agora tudo mudará. O PS ganhará as próximas legislativas e muito provavelmente Sócrates será o próximo PR. E se o povo ficar insatisfeito com Sócrates e com o PS, PPC(que entretanto se retirará e ficará quieto uns anos) será o PR seguinte, lá para 2018.
Este povo não se deixa calcar!

Filipe Tourais disse...

É isso tudo. Regressa um Sócrates, depois regressa um Passos Coelho para, logo a seguir, regressar outro Sócrates. Este país está sempre a mudar.