segunda-feira, 9 de julho de 2012

O povo é sereno



"Perante uma carreira faz-se um parecer [de equivalências] escrito, desenvolvido”, dizia ontem Marcelo Rebelo de Sousa, explicando que deve estar descrito quais foram as actividades profissionais de Miguel Relvas que deram equivalência a cada disciplina. Normalmente, prosseguiu, esse parecer é feito por dois professores e é isso que deve ser dado conhecimento ao público, para acabar com a especulação. Neste caso, acrescentou Marcelo, seria relevante dar conhecimento de outros casos em que houve equivalências baseadas no currículo, para se esclarecer se houve favorecimento - porque essa é uma das ideias que ficou na opinião pública. “Quem está em Xeque, mais do que Miguel Relvas, é a universidade”, acrescentou. O sinal estava dado. Marcelo Rebelo de Sousa, na sua homilia semanal aos fieis, distanciava-se do já longo espólio de trapalhadas protagonizadas pelo homem de mão de Passos Coelho e reduzia-lhe o espaço de manobra ao fornecer à sua plateia a grelha de análise a utilizar no dia seguinte.

E o dia seguinte chegou. A meia hora que a Lusófona deu aos jornalistas para consultarem o processo do seu aluno mais famoso bastou e sobrou para que se dessem conta que não havia quaisquer pareceres desenvolvidos por elementos do Conselho Científico que fundamentassem que experiência profissional equivalia a que cadeiras. Na sua vez, encontraram uma prosa elogiosa da autoria do reitor Fernando Santos Neves, nova equivalência daquilo que deveria ter acontecido. E não aconteceu.

Durante o dia, alguns jornalistas perguntaram a Nuno Crato a sua opinião sobre o caso Relvas. Tal como Marcelo, o Ministro da Educação distanciou-se, escusando-se a comentar um caso que envolve um colega de Governo e aludindo vagamente à revisão em curso do Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior. Ora, tratando-se do Ministro da tutela do Ensino Superior, poderia ter dito qualquer coisita sobre os fundamentos mais do que suficientes que existem para uma auditoria rigorosa à Lusófona, como, de resto, lho solicita o Sindicato dos Inspectores da Educação e do Ensino. Mas não. Nada. A omissão é um bom sinal de que os responsáveis pela Lusófona podem dormir tranquilos.

Quanto ao que acontecerá a Miguel Relvas, também não tem motivos para se preocupar em demasia. Ontem à noite , a SIC transmitiu um trabalho de investigação jornalística imperdível sobre uma distracção com três décadas que manteve os portugueses fieis ao “centrão de interesses formado por PS, PSD e CDS”: “Profissão: ex-ministro”. Como pode facilmente constatar-se, o Dr. Relvas já tem curriculum para exercê-la. Insinuava ontem o Professor Marcelo que Portugal é um país de parolos. Esteve bem, novamente. Ontem, esteve em grande. Objectivamente, o problema não estará propriamente em nenhum Relvas, nem nos passados, nem nos presentes e muito menos nos futuros. Sim, que muitos mais lhes seguirão. O povo é sereno.

6 comentários:

FB request disse...

Quanto ao que acontecerá a Miguel Relvas, também não tem motivos para se preocupar em demasia. Ontem à noite , a SIC transmitiu um trabalho de investigação jornalística imperdível sobre uma distracção com três décadas que manteve os portugueses fieis ao “centrão de interesses formado por PS, PSD e CDS”: “Profissão: ex-ministro”. Como pode facilmente constatar-se, o Dr. Relvas já tem curriculum para exercê-la. Insinuava ontem o Professor Marcelo que Portugal é um país de parolos. Esteve bem, novamente. Ontem, esteve em grande. Objectivamente, o problema não estará propriamente em nenhum Relvas, nem nos passados, nem nos presentes e muito menos nos futuros. Sim, que muitos mais lhes seguirão. O povo é sereno.

Farto Disto Tudo disse...

O povo não é sereno, o povo português é manso, burro e masoquista. (Farto Disto Tudo)

Fernando Vasconcelos disse...

Mas porque razão se haveria de preocupar? É ilegal? Já sabemos que não. Não é muito correcto, nem muito próprio. Também já sabemos. E penso que também já conhecemos qual a posição do ministro sobre a ética. Quando dá jeito fala-se nela quando não dá arruma-se a um canto para usos futuros. No entretanto oiço uma voz sussurrar "e a consciência"? Qual consciência ? Não sei se o sr. Ministro merece a licenciatura ou não. Até admito que sim, pelo menos reconheço-lhe capacidade intelectual para isso (já moral é outra história, mas também não consta que essa seja avaliada mesmo em Ciências Politicas - ou sobretudo em Ciências Politicas atreveria-me a dizer) agora que isto demonstra uma total ausência de brio e carácter isso que me desculpe o ministro demonstra: Eu nunca aceitaria uma licenciatura que me fosse outorgada nestes termos. NUNCA. E essa é que é a questão. Há quem diga que a responsabilidade é da Universidade, pois sim também é. Mas em primeiro lugar é do ministro que sendo quem é NUNCA deveria aceitar uma licenciatura nestes termos. NUNCA.

Filipe Tourais disse...

Diz que "nunca aceitaria"? Não o percebo. Foi o ministro quem solicitou a equivalência e pagou por ela. E o "nestes termos" corresponde a um procedimento nunca visto ser aplicado a mais ninguém, em que, em vez de equivalências experiência a experiência, cadeira a cadeira, aparece um elogio que faz tudo equivaler a tudo, por grosso. O resto é o resto.

Fernando Vasconcelos disse...

Caro Filipe, penso que não leu bem o meu comentário. O que eu disse foi que EU nunca aceitaria. Obviamente o ministro aceitou. E logo obviamente demonstrou total falta de brio e de carácter. É responsável a universidade pelo que fez obviamente mas também é responsável o ministro por o aceitar.

Filipe Tourais disse...

Não, não, o Ministro não aceitou, pediu. Entre aceitar e pedir vai um grande esticcão. O Fernando é que parece não entendeu o meu comentário.