quarta-feira, 18 de julho de 2012

O elixir do descalabro

Justificando-se com ganhos de competitividade que diz serem ainda insuficientes em Portugal, a Comissão Europeia defende que sejam implementadas ainda mais medidas que promovam a redução de salários, nomeadamente através da diminuição de indemnizações por despedimentos, em cada vez maior número porque cada dia mais facilitados, e através da limitação de aumentos salariais resultantes de convenções colectivas de trabalho. Segundo as suas estimativas, até ao final do programa de ajustamento, em 2014, cada empregado estará a ganhar, em média, entre 452 e 491 euros a menos por ano face a 2011. E ainda menos depois de 2014.

A remuneração do trabalho é novamente o factor de ajustamento do modelo com o qual tentam compensar todas as deficiências de organização, estas sim, à espera de reformas estruturais necessárias, e todos os custos, tais como energia e combustíveis, protegidos pelo centrão de interesses que os portugueses não trocam por nada deste mundo. 

A estratégia será, pois, negligenciar os efeitos que o consumo tem sobre o emprego e continuar a desmantelar o mercado interno e esperar, apesar da crise que também afecta as economias que importam o que produzimos, que as exportações compensem esse efeito. Dificilmente assim será.

O disparate completa-se nos terrenos da fiscalidade. Em 2010, a administração fiscal recebeu 4.720.473 declarações de IRS, mas a maior parte (57,35%) acabou por não pagar qualquer imposto, sendo este o número mais elevado dos últimos anos. Continuámos a empobrecer em 2011 e é ideal assumido que o empobrecimento prossiga nos anos seguintes, pelo que o objectivo é que cresça ainda mais o número de declarações de IRS com rendimentos abaixo do limiar de tributação e que se reduza ainda mais o número de declarações pela via do desemprego.

Depois, e sabendo-se que é dos salários que resulta, de longe, a maior fatia das receitas fiscais, surpresa das surpresas, a descoberta é a de que os serviços públicos são insustentáveis para uma população empobrecida quer pelas opções políticas acima descritas, quer ainda por um serviço da dívida que aceitaram contrair a juros agiotas e que não querem renegociar.

É a hora de entrarem em cena os peritos. Há-os a proporem encerramentos de urgências no sector da Saúde, há-os a aumentarem o número de alunos por turma na Educação e a colocarem professores sem horário lectivo, há-os a dedicarem-se a racionar a Justiça através do encerramento de Tribunais, há-os preocupados com avaliação de desempenhos apesar das carreiras estarem congeladas por tempo indeterminado e há-os que sugerem novas doses de todas estas e outras  medidas que cavaram e continuam a cavar um buraco cada vez maior.

Toda esta austeridade que poupa ricos e poderosos prossegue com o povo a assistir impávido e sereno, sem esboçar reacção que se veja. Os moralistas repetem máximas patrioteiras como forma de expressarem a sua obediência e de marcarem presença num caminho de virtude que inclui bancos de esmolas e voluntariado a rodos. Os resignados vibram com futilidades e conversam sobre frios e calores. Os justiceiros medem o que ainda não cortaram ao vizinho e comentam o seu ar de boa vida. Os “indignados” berram ao sabor do milagre da multiplicação dos “eventos” e juram que nunca mais voltarão a votar na puta da vida. Cada um à sua maneira, são o elixir do descalabro que fazem por merecer.

Fora deste “amplo consenso social”, há uma minoria que até diz umas coisas com lógica, mas não há que fazer-lhes caso, "toda a gente sabe" que são  uns “radicais”, "utópicos", "irresponsáveis": só querem é tacho. Empobrçamos, pois, em harmonia. Obrigado, desculpem e com licença, sim?

1 comentário:

FB Request disse...

Justificando-se com ganhos de competitividade que diz serem ainda insuficientes em Portugal, a Comissão Europeia defende que sejam implementadas ainda mais medidas que promovam a redução de salários, nomeadamente através da diminuição de indemnizações por despedimentos, em cada vez maior número porque cada dia mais facilitados, e através da limitação de aumentos salariais resultantes de convenções colectivas de trabalho. Segundo as suas estimativas, até ao final do programa de ajustamento, em 2014, cada empregado estará a ganhar, em média, entre 452 e 491 euros a menos por ano face a 2011. E ainda menos depois de 2014.