segunda-feira, 23 de julho de 2012

Heróis por medida

Um grupo de amigos do tiro com arco reúne-se numa competição de pontaria. Colocam uma maçã sobre a cabeça de um voluntário para o efeito e começa o concurso. O amigo inglês aponta, atira e zás, acerta em cheio na maçã. “I’m Robin Hood!” – exclama, eufórico. Chega a vez do suíço. Aponta, atira e idêntica proeza: “I’m William Tell!” – exclama, com a mesma euforia do amigo. O terceiro, como sempre acontece nestes concursos, era português. Aponta, atira e acerta em cheio no olho do infeliz que estava por baixo da maçã: “I’m sorry.” – exclama, como  se nada fosse.

Lembrei-me deste concurso a propósito das declarações de ontem à RTP do comandante nacional da Protecção Civil, Vítor Vaz Pinto, a admitir que se enganou na avaliação que fez dos incêndios no Algarve. “I’m sorry”. E foi tudo. Não se demitiu. As casas e as centenas de hectares de floresta que arderam por causa do seu erro valem tanto como o olho de um infeliz numa anedota. Em Portugal, é assim. Daqui a um par de semanas, o senhor já poderá morrer à vontade como “grande profissional que nunca virou as costas à responsabilidade e ao seu dever patriótico”, ou qualquer treta do género. Já vimos como um ministro do salazarismo pode ser enterrado como “grande homem”, apesar de ter enviado para morrerem na guerra em África centenas de estudantes cujo único crime foi terem ousado lutar contra a repressão do regime do santo da sua devoção.

"Primeiro estranha-se, depois entranha-se", escreveu Pessoa para a Coca-cola. Assim é também o processo evolutivo da Cultura de um povo. Robin Hood, William Tell, Salgueiro Maia, Helena Cidade Moura, José Saramago ou traidores assassinos, aldrabões bem-falantes e outros impostores anões. Em cada momento, cada povo faz ou esquece os seus heróis, consoante os valores que queira cultivar e deixar como referências para as gerações seguintes. Deixaram-nos tanto e não estamos a deixar grande coisa.

1 comentário:

FB Request disse...

Um grupo de amigos do tiro com arco reúne-se numa competição de pontaria. Colocam uma maçã sobre a cabeça de um voluntário para o efeito e começa o concurso. O amigo inglês aponta, atira e zás, acerta em cheio na maçã. “I’m Robin HooD!” – exclama, eufórico. Chega a vez do suíço. Aponta, atira e idêntica proeza: “I’m William Tell!” – exclama, com a mesma euforia do amigo. O terceiro, como sempre acontece nestes concursos, era português. Aponta, atira e acerta em cheio no olho do infeliz que estava por baixo da maçã: “I’m sorry.” – exclama, como se nada fosse.