quinta-feira, 19 de julho de 2012

Assim, não

Vivemos um momento em que, mais do que nunca, a restauração da esperança num futuro melhor necessita, como de pão para a boca, de alternativas que conquistem a credibilidade de um eleitorado que deixou de acreditar na política. E cá está. Pela mão do Bloco de Esquerda, regressa ao Parlamento a legalização do cultivo de canábis para consumo pessoal e a criação de clubes sociais “onde os consumidores possam "fugir às malhas perversas do mercado clandestino e subterrâneo do tráfico ilegal das drogas”".

Levantam-se aqui várias questões. A primeira de todas é se a iniciativa legislativa procura corresponder a algum anseio detectável na maioria da população. Resposta negativa. A segunda é se a proposta tem alguma probabilidade de ser aprovada. Nova resposta negativa. E uma terceira tem que ver com a credibilidade do proponente, se sai reforçada ou debilitada aos olhos da maioria do eleitorado. Resposta óbvia, não estivesse a questão intimamente relacionada com a primeira: sai fragilizada.

E então? Bem sei que as idiossincrasias congénitas mais puristas advogam que a acção política não pode prostituir-se ao voto e que o Bloco dá voz às minorias. Muito lindo. E, então, é a acção política que fica prostituída a tão comovente purismo idiossincrático. Comovente.

E mau serviço ao país, às causas maiores e às causas menores. É bom reconhecê-lo, também reconfortante, que o Bloco tem sido exemplar na defesa intransigente do emprego, das condições de trabalho, do Estado social e do interesse público em geral. Contudo, a comunicação tem regras. O seu tempo é finito, para o Bloco mais finito ainda, e cada segundo é precioso para apresentar as soluções que uma comunicação social assumidamente alinhada com o austeritarismo oficial faz questão de desvirtuar.

Os partidos do “arco” do poder seguem uma estratégia de comunicação que repete ideias para que estas entrem no ouvido. Resulta. E o Bloco perde-se em devaneios fracturantes com chumbo na AR assegurado à partida. E também resulta, mas na dispersão da atenção necessária para que o restante trabalho seja valorizado pela opinião pública, na desmobilização que provoca ouvir falar em canábis e em touradas quando se sente fome ou se perde o emprego, na alergia que certas “palavras mágicas” geram em franjas de população mais conservadoras, que viram as costas mal as ouvem, e na alimentação de chacotas várias, piadas de jardim e mistificações, que produzem esse mesmo efeito.

Quem quer ser levado a sério, leva-se a sério. O Bloco parece não ter ainda aprendido uma lição que lhe custou uma varridela de metade dos seus deputados nas últimas eleições. Não basta ter um bom projecto. A política é também estratégia, astúcia, sentido de oportunidade e, por que não dizê-lo, uma certa dose de hipocrisia. As causas fracturantes, como o próprio nome e a reduzida representação parlamentar do Bloco indicam, fracturam, não unem. O contrário do que se exige de uma alternativa credível. A abstenção cresce, pois cresce. E a culpa não é só dos outros.

(editado) 

5 comentários:

Filipe Tourais disse...

Vivemos um momento em que, mais do que nunca, a restauração da esperança num futuro melhor necessita, como de pão para a boca, de alternativas que conquistem a credibilidade de um eleitorado que deixou de acreditar na política. E cá está. Pela mão do Bloco de Esquerda, regressa ao Parlamento a legalização do cultivo de canábis para consumo pessoal e a criação de clubes sociais “onde os consumidores possam "fugir às malhas perversas do mercado clandestino e subterrâneo do tráfico ilegal das drogas”".

Vítor Fernandes disse...

Não podia estar mais de acordo consigo, Filipe.

Anónimo disse...

O tempo de evitar a tragédia esgotou-se. Portugal está numa espiral de decadência. Regresso de férias, parte delas passadas em Portugal, parte em Espanha e parte em Londres. Percebe-se mais facilmente a decadência profunda do nosso país quando se chega vindo de fora. Em outros países europeus pode haver crise financeira, crise económica, desemprego, etc, mas há orgulho nacional, vontade de lutar, sociedades que funcionam e, apesar de tudo, economias produtivas. Em Portugal há a maior de todas as crises, uma crise de valores. Aqui há um povo inerte, destruído na alma. Há pessoas quietas, a olharem o tempo que passa e há pessoas que correm, atrasadas. Há uma economia de vendedores, esteticistas, stands de carros usados e prostitutas de beira de estrada. A maior parte do país ao abandono, e uma certa vergonha disfarçada de se ser português.

Anónimo disse...

A tragédia já existe, o tempo para evitá-la há muito que já lá vai. Agora estamos no tempo de evitar que aumente ainda mais. Não nos resta outra alternativa senão fazê-lo porque temos que continuar a viver.

André Mano disse...

Uma excelente análise. Ler este texto lembra-me porque razão deixei de votar BE. Independentemente dos partidos do poder terem uma máquina bem montada e pronta a enfatizar os "erros" dos pequenos partidos, a verdade é que este é mais um exemplo de uma certa deriva estratégica que regularmente parece assaltar o Bloco. Talvez essa deriva se possa explicar pela complexa rede de tendências e sensibilidades que está por detrás do BE, mas isso para mim, enquano eleitor, pouco me importa. O que me importa é que, apesar de concordar com a proposta, vejo um partido que de tempos a tempos revela um profundo desconhecimento sobre o "povo" real, e o povo "real" não quer saber de cannabis, quer saber de emprego e de saúde!

Abraço votos de boas crónicas!