quinta-feira, 26 de julho de 2012

A exigência, os exigentes, os transigentes e a cleptomania à solta

Não é o Governo que está a “exigir de mais” ao país, – é antes o tempo que “é muito exigente”. A justificação foi deixada ontem pelo primeiro-ministro no discurso que fez na sessão solene do dia do município de Cantanhede, depois de ter sido vaiado à porta da câmara por cerca de uma centena de manifestantes. Mas a que país é que o Governo não está a exigir demasiado? Que tempos são estes?

Responde o um alto dirigente de um tink-tank neo-neoliberal chamado OCDE, um senhor  apresentado como “responsável por Portugal”, apesar de não me lembrar de alguma vez o ter visto candidatar-se em eleições: para contornar a decisão do Tribunal Constitucional (TC), o alargamento da suspensão dos subsídios de férias e de Natal ao sector privado é uma “solução razoável”. O país das exigências não é o das grandes fortunas livres de impostos, nem o do sector financeiro com juros de favor, nem o do maior proprietário imobiliário isento de IMI, nem o das empresas sediadas em capitais financeiras onde lhes sabe bem pagar tão pouco. O país e o tempo das exigências é o de quem vive do seu trabalho.

Também não é o país dos monopólios que sobrecarregam as famílias e a competitividade da economia portuguesa com as tarifas mais altas da Europa. Em vez de cortar nas rendas que paga e combater os abusos que permite ao sector, conforme recomendado pelo ocupante externo, o Governo põe-se ao lado dos maiores empregadores de ex-ministros contra os caloteiros daquela parcela de país a quem a sua moralidade geradora de desemprego vai retirando, entre outros, subsídios de férias e de Natal: o Governo estará a preparar a criação de uma lista negra onde serão expostos à vergonha todos aqueles que acumulem mais de 75 euros em dívida aos prestadores de serviços essenciais de luz e gás, cujo IVA, recorde-se, foi recentemente agravado.

Finalmente, o “tempo” também não está a exigir demasiado ao senhor doutor à prova de escândalos. Há quem hoje lhe diagnostique o vício dos telemóveis, apesar deste ser apenas um pormenor de uma enfermidade maior chamada cleptomania, simultaneamente a imagem de marca deste Governo e o vício maior de um povo que se acostumou de tal forma a alimentar uma cleptocracia que não quer nem ouvir falar em confiar a governação do país a partidos sem historial de roubalheira.

São tempos muito exigentes, temos que concordar. Para alguns, apenas. E, ou exigimos de uma vez por todas o que devemos exigir, ou vão continuar a exigir-nos porque não exigimos. Quem não sabe ser exigente nunca será tratado como gente.



Vagamente relacionado: o consórcio Arena Atlântico, constituído por Luís Montez, genro de Cavaco Silva e dono da Música no Coração, Álvaro Ramos, da Ritmos&Blues, a actual equipa de gestão do Pavilhão Atlântico e de um fundo de capitais "de risco" do BES é o ilustre vencedor do concurso de compra daquele pavilhão, que adquiriu por 21,2 milhões de euros. O pavilhão custou-nos, ao Estado, mais de 55 milhões. A obra foi financiada no BPN.

1 comentário:

fb request disse...

Não é o Governo que está a “exigir de mais” ao país, – é antes o tempo que “é muito exigente”. A justificação foi deixada ontem pelo primeiro-ministro no discurso que fez na sessão solene do dia do município de Cantanhede, depois de ter sido vaiado à porta da câmara por cerca de uma centena de manifestantes. Mas a que país é que o Governo não está a exigir demasiado? Que tempos são estes?