domingo, 3 de junho de 2012

Quem admira um asno também é capaz de apoiar um ladrão



Hoje, logo pela manhã, muitos portugueses transbordaram de irritação quando souberam que um jornal alemão publicava como título de primeira página “Estes portugueses não metem medo”. Lástima que o título se cingisse ao tema futebol e ao mau nível das últimas exibições da selecção nacional. O país seria outro se tanto potencial de mobilização espontânea fosse canalizado para o que realmente interessa. Há coisas que apenas acontecem em Portugal porque existe uma maioria adormecida que as deixa acontecer.

Uma delas é a facilidade com que certos asnos conseguem fazer-se passar por sábios. O correspondente financeiro do Le Monde em Londres lançou em Lisboa o livro "O Banco – Como o Goldman Sachs dirige o mundo" e falou do ex-gestor do banco a quem Passos Coelho entregou o dossier dos negócios das privatizações. “O senhor Borges estava fora do meu radar quando escrevi o livro, nunca tinha ouvido falar”, afirmou Marc Roche à Rádio Renascença, acrescentando que apenas tomou conhecimento do economista “quando ele foi obrigado a demitir-se do FMI”. As fontes do jornalista no FMI disseram-lhe que “se livraram dele porque não estava à altura do trabalho. E agora chego a Lisboa e descubro que está à frente do processo de privatização. Há perguntas que têm de ser feitas”, declarou o autor do livro que mostra as relações de grande proximidade de gente que passou pelo Goldman Sachs e por governos de países onde o banco teve influência.

Quem diria que ainda haja quem o leve a sério. Numa entrevista absolutamente deplorável ao Jornal de Negócios, na Sexta-feira, António Borges defendeu que "diminuir salários não é uma política, é uma urgência" para o país. E não se referia ao seu próprio salário. Este domingo, o Correio da Manhã revela que os honorários de Borges em 2011, até ser afastado por incompetência do cargo que ocupava no FMI, totalizaram 225 mil euros que não foram sujeitos ao pagamento de qualquer imposto, devido ao estatuto de funcionário do Fundo Monetário Internacional.

Mas felizmente que também há quem suba na vida através de outros meios que não o favor, o compadrio e a falcatrua. Podem, por isso, expressar-se livremente fora das balelas oficiais que são repetidas até se tornarem verdades assimiladas por uma maioria dessa forma neutralizada na eventual reacção a um desastre que aumenta dramaticamente a cada dia que passa. É o caso de Teodora Cardoso. Na Sexta-feira, em entrevista à rádio pública, a presidente do Conselho de Finanças Públicas e ex-economista do Banco de Portugal expressou a sua discordância em relação à abordagem defendida pelo FMI e União Europeia para aumentar a competitividade portuguesa por via do corte de salários: “se o nível de competitividade” for obtido por essa via de corte de salários, “isso significa que nos estamos a candidatar a passar para o terceiro mundo, se não para o quarto”. Para Teodora Cardoso, o ganho de competitividade não se faz por via do corte de salários, como comprova um passado do qual herdámos o nosso atraso estrutural, mas sim através da qualificação e organização. A qualificação e a organização que procuram compensar através de salários baixos. Os salários baixos que, porque rentabilizam uma economia com baixa qualificação e pouca organização, perpetuam o nosso atraso estrutural. É um ciclo vicioso.

Noutra vertente, a política de incentivos à baixa de salários, obsessão tanto do FMI como do Governo Coelho-Borges-Relvas-Portas, tem tido como consequência a destruição do mercado interno. Esta destruição tem sido o catalisador do encerramento de empresas que deixaram de conseguir vender os seus produtos e é um dos maiores travões a novos investimentos privados inviabilizados pela ausência de consumidores. Nesta medida, a política salarial poderia ser um importante instrumento para encontrar uma saída para a crise, como defendem muitos economistas. Entre eles está Jan Toporowski, economista da London School of Oriental and African Studies, que disse o seguinte numa entrevista recente, em Lisboa: "uma boa estratégia tem de ser contra-intuitiva: têm de começar por aumentar salários. Se aumentarem os salários, em especial os mais baixos, esse dinheiro será gasto na economia e reanimará a actividade económica e as receitas do Estado. Isto é muito difícil de fazer numa economia capitalista de mercado livre, mas podem fazer-se algumas coisas, como aumentar o salário mínimo e os salários dos funcionários públicos pior pagos, incentivar o emprego a tempo inteiro em vez de fragmentá-lo em empregos part-time. Isto teria um efeito positivo na actividade económica." É exactamente o oposto do que está a ser feito.

O resultado só surpreende quem, deixando-se embalar pelo discurso dominante, consiga abstrair-se quer do cataclismo monstruoso que a realidade nos mostra todos os dias, quer dos enriquecimentos criminosos proporcionados pelo empobrecimento geral. Estão em maioria, fazem de Portugal um paraíso da delinquência e uma terra das oportunidades para os incapazes. Quem aplaude um Borges não dispensa um Relvas e quem admira um Passos também entroniza Portas e outras causas submarinas , já para não falar da confraria do pastel de nata e da arte de vomitar disparates bem devagarinho. Estão todos perfeitamente à vontade. Estes portugueses não lhes metem medo.







1 comentário:

FB Request disse...

Hoje, logo pela manhã, muitos portugueses transbordaram de irritação quando souberam que um jornal alemão publicava como título de primeira página “Estes portugueses não metem medo”. Lástima que o título se cingisse ao tema futebol e ao mau nível das últimas exibições da selecção nacional. O país seria outro se tanto potencial de mobilização espontânea fosse canalizado para o que realmente interessa. Há coisas que apenas acontecem em Portugal porque existe uma maioria adormecida que as deixa acontecer.