segunda-feira, 7 de maio de 2012

Um Domingo em cheio

Quem quer prosseguir no caminho da austeridade que tem empurrado a Europa para uma recessão económica sem precedentes e feito regredir as suas sociedades para patamares de desenvolvimento com cada vez menos direitos sociais e menos poder de compra? Em França e na Grécia, as respostas eleitorais de ontem não poderiam ter sido mais esclarecedoras. Os franceses depuseram Sarkozy, intérprete da comprovadamente fracassada solução austeritária, e elegeram Hollande, defensor de políticas orientadas para o crescimento, para o emprego e para o reforço do Estado social. Os gregos foram ainda mais expressivos no seu repúdio pela austeridade que os tem sequestrados: conjuntamente, os partidos alter-troika obtiveram dois terços dos votos, os radicais da austeridade, os partidos do chamado “arco da governabilidade”, Nova Democracia e PASOK, viram o seu score eleitoral reduzido em cerca de 44 por cento e o Syriza, homólogo do nosso Bloco de Esquerda, quadruplicou o seu resultado eleitoral relativamente às anteriores eleições e é agora o segundo maior partido grego.
Foi, de facto, um Domingo em cheio, não apenas para franceses e gregos, para todos os cidadãos europeus. Os resultados de ontem poderão marcar um ponto de viragem no desastre que todos temos sentido na pele, assim Hollande cumpra com o que prometeu em campanha e a esquerda grega saiba chegar a um entendimento para formar um Governo capaz de libertar a Grécia da ocupação externa.
Para já, enquanto esperamos para ver como se equilibrarão as forças no eixo franco-alemão e pela organização da esquerda grega para tomar as rédeas do poder, enquanto Hollande não ceda e não mate a esperança que semeou e até que os comunistas gregos oficializem definitivamente a sua intransigência para se entenderem com a restante esquerda, o que poderá forçar novas eleições no próximo mês, o poder político europeu recebeu um sério aviso quanto à utopia da prepotência que têm utilizado para governar contra os seus cidadãos: a paciência não é eterna, esgota-se, e com ela o poder que lhes tem sido confiado. O efeito das mensagens de medo, semeadas pelos domesticadores de serviço que colocam nos meios de comunicação social para condicionarem percepções, é finito no tempo.
É com uma breve nota sobre estes senhores que termino, sublinhando a tolerância com que comentam medidas como a redução da idade mínima para a reforma para 60 anos em França, a tributação das grandes fortunas, o financiamento directo dos estados pelo BCE e o reforço do Estado social francês, todas elas defendidas por Hollande sem que nenhum deles, ao contrário do que fazem aos partidos portugueses que defendem o mesmo, lhe aponte qualquer radicalismo e observando que tais medidas, apesar de colidirem com o que tem sido o discurso e a prática de PSD, PS e CDS, os partidos que recentemente também aprovaram no Parlamento o tratado orçamental que Hollande já disse que não quer, não impediu os seus líderes de se alargarem em mensagens de regozijo pela sua eleição e de expressarem o seu enorme contentamento pelos entendimentos que aquela poderá agora possibilitar, sem que nenhum destes serviçais tenha encontrado nesta trapalhada qualquer incongruência digna de registo. Estes lacaios do poder preferem colar rótulos de radicalismo e de extremismo à esquerda grega e acenar com o conhecido fantasma da tal “ingovernabilidade” que, sugerem-no, castigará os gregos ainda mais do que toda a governabilidade de que se livraram. O capítulo da História europeia que ontem poderá ter sido iniciado também terá umas linhas dedicadas às cadeiras onde os temos visto comodamente sentados a debitar os seus sermões e as missas tão do agrado de quem as encomenda. Foi um domingo em cheio para todos nós, negro para todos eles.

3 comentários:

FB Request disse...

Quem quer prosseguir no caminho da austeridade que tem empurrado a Europa para uma recessão económica sem precedentes e feito regredir as suas sociedades para um patamar de desenvolvimento com menos direitos sociais e menor poder de compra? Em França e na Grécia, as respostas eleitorais de ontem não poderiam ter sido mais esclarecedoras. Os franceses depuseram Sarkozy, intérprete da comprovadamente fracassada solução austeritária, e elegeram Hollande, defensor de políticas orientadas para o crescimento, para o emprego e para o reforço do Estado social. Os gregos foram ainda mais expressivos no seu repúdio pela austeridade que os tem sequestrados: conjuntamente, os partidos alter-troika obtiveram dois terços dos votos, os radicais da austeridade, os partidos do chamado “arco da governabilidade”, Nova Democracia e PASOK, viram o seu score eleitoral reduzido em cerca de 44 por cento e o Syriza, homólogo do nosso Bloco de Esquerda, quadruplicou o seu resultado eleitoral relativamente às anteriores eleições e é agora o segundo maior partido grego.

Anónimo disse...

Foi de facto um domingo em cheio e muita coisa mudou para que tudo continue na mesma!
Assim funcionam as oligarquias mascaradas de democracias.

BRUXA disse...

Este domingo nao foi assim tao "em cheio" como afirma pois, nao devemos esquecer que os nazis entraram com demasiados votos. Um só que tivesse sido, já era em demasia!