quinta-feira, 17 de maio de 2012

O mês do Medo, dia primeiro

E hoje cá temos nós novamente a comunicação social como protagonista da cena europeia. Tudo porque, ao que parece, na Grécia, os depositantes levantaram uma quantia que, segundo as fontes, umas reveladas e outras mantidas em mistério, se cifrou entre os 700 e os 800 milhões em apenas um dia e 1200 milhões em dois dias. A mesma imprensa também vai dizendo que, para já, e sublinhemos este “para já” mesmo nada alarmista, com um “ainda não” que sublinha a gravidade de uma situação inexistente,ainda não se vêem grandes filas junto às entradas dos bancos e dos terminais do multibanco” e que “a fuga de capitais dos bancos não é sequer uma novidade no país, já que, entre Janeiro de 2010 e Março de 2012, saíram dos bancos gregos cerca de um terço dos depósitos realizados, actualmente, aproximadamente 160 mil milhões de euros”.
Então, o que é que sustenta o título “Corrida aos depósitos na Grécia alarma outras capitais europeias”? A avaliar como é contornada a questão, certamente que nada tem que ver com o corte do financiamento decretado pelo BCE a quatro bancos gregos, aos quais toda a desejável governabilidade que reinou no país até 6 de Maio passado fracassou no intento de obrigá-los a recapitalizarem-se de forma a cumprirem com os rácios fixados para o sector em toda a Europa. No BCE manda gente muito responsável e competentíssima, como é o caso de Vítor Constâncio, pelo que a decisão só pode ser absolutamente correcta e podemos estar completamente tranquilos, quer desse lado, quer daquele lado desse mesmo lado que nunca se negou a obedecer-lhe enquanto governou a Grécia.
O mesmo já não poderemos dizer quanto aos perigos do “radicalismo” que se vão desenhando no ar. O alarme destes entre 600 e 800 milhões de levantamentos diários tem uma motivação mais do que óbvia: o medo que os próprios gregos têm de poderem vir a ser governados por “radicais” de esquerda que os obriguem a deixar de ter a honra de continuarem a ser espezinhados pelas sucessivas imposições do BCE, FMI e Angela Merkel. E estava tudo a correr tão bem. Ou quase.
A Grécia estava quase, quase, quase a começar a sua recuperação, mas para tal ser possível seria necessário que terminassem o seu percurso até àquele ponto imaginário a partir do qual é tecnicamente impossível continuar a cair: o fundo. Nisto, permitem-se umas malfadadas eleições e, com elas, entram em cena os “radicais”, apostados em deitar tudo a perder. Querem inverter esse trajecto de sentido obrigatório até ao fundo. Conclusão: ainda nem assumiram o poder e já estão a dar cabo da Grécia. Esta narrativa absurda é apenas o início de toda a pressão que será exercida sobre os gregos até 17 de Junho. Têm precisamente um mês para que se arrependam de um dia ter voltado a ter esperança no futuro. Os restantes, portugueses incluídos, têm os mesmos 30 dias para reporem os níveis de resignação, se é que algum dia ousaram descuidá-los. Tenham medo, muito medo. Não de chegar ao fundo. Dos “radicais”.

1 comentário:

FB request disse...

E hoje temos novamente a comunicação social como protagonista da cena europeia. Tudo porque, ao que parece, na Grécia, os depositantes levantaram uma quantia que, segundo as fontes, umas reveladas e outras mantidas em mistério, se cifrou entre os 700 e os 800 milhões em apenas um dia e 1200 milhões em dois dias. A mesma imprensa também vai dizendo que, para já, e sublinhemos este “para já” mesmo nada alarmista, com um “ainda” que sublinha a gravidade da situação, “ainda não se vêem grandes filas junto às entradas dos bancos e dos terminais do multibanco” e que “a fuga de capitais dos bancos não é sequer uma novidade no país, já que, entre Janeiro de 2010 e Março de 2012, saíram dos bancos gregos cerca de um terço dos depósitos realizados, actualmente, aproximadamente 160 mil milhões de euros”.