terça-feira, 15 de maio de 2012

Um perigo chamado democracia

Os ministros das finanças da zona euro exprimiram, esta segunda-feira, uma "vontade inabalável" de que a Grécia permaneça no euro, mas avisaram que, em contrapartida, Atenas terá de prosseguir as reformas acordadas em troca de uma ajuda de 240 mil milhões de euros. Como pode observar-se, em apenas um paráAgrafo do discurso oficial que nos é servido à maneira de informação, há vontades inabaláveis que abalam imediatamente, um par de palavras adiante.  A linguagem é a do costume, a da chantagem, que tão bem tem resultado. Até agora.
Duas sondagens realizadas depois das eleições de 6 de Maio na Grécia sugerem que deixe de ser assim muito em breve. Caso haja eleições, e haverá, e caso o Syriza efective a vitória expressiva que elas sugerem, o cenário ficará completamente alterado. Dissipado o medo, a linguagem terá forçosamente que mudar. Veremos a Europa a negociar e não a impor a sua vontade a actores obedientes. E isto porque, constatá-lo-emos, nem só a Grécia tem a perder com uma hipotética saída do euro. Será toda a Europa a perder, em especial aquele lado obscuro do poder que tem mexido os cordelinhos dos acontecimentos: a finança.
Encaixou muito bem na matriz cultural europeia a ideia do sacrifício para alcançar a redenção e, porque não, o paraíso, com os deuses mercados a enervarem-se ao menor deslize e a ameaça sempre presente de falta de dinheiro para pagar salários e assegurar o regular funcionamento da economia em geral e de serviços públicos em particular. Medo e chantagem, chantagem e medo. 
O certo é que nem mesmo dominando toda a comunicação social o sistema consegue esconder que por toda a Europa há bancos que estariam falidos caso os seus balanços fossem conhecidos. Não é à toa que o Banco Central Europeu tem a singularidade de não emprestar directamente aos estados e prefere proporcionar ao sector financeiro uma intermediação tão inútil como exageradamente lucrativa: estamos todos, principalmente os países intervencionados, a pagar uma recapitalização que evite a nacionalização de todo o sector e, dessa forma, somos nós, cidadãos, que vamos assegurando a manutenção de um poder ilegítimo, quer à luz das regras da democracia, quer ainda das leis de mercado que oficialmente defendem, mas que,  porque a banca europeia apenas sobrevive à sombra deste expediente artificial, na realidade, correspondem à sua mais descarada usurpação. .
Na versão oficial do "consenso europeu", aparentemente, apenas os serviços públicos "pesam" e  desequilibram as contas públicas. E qual seria o tamanho do nosso desafogo caso Grécia, Portugal, Irlanda, Espanha e Itália, principalmente estes, obtivessem liquidez ao preço a que ela é facultada ao sector financeiro para o qual todos somos forçados a trabalhar e a abdicarmos de uma despropositada parcela do nosso bem-estar individual e colectivo? Esta é uma das questões centrais que se colocará inevitavelmente assim que haja um Governo na Europa que represente os reais interesses dos seus cidadãos e bata o pé ao saque monumental a que todos os europeus estamos sujeitos. Imediatamente, háverá efeitos de contágio a outros países. Uma outra está relacionada com o processo de decisão nada democrático na UE que permitiu que chegássemos ao absurdo onde um directório e um séquito de bobos obedientes nos encurralaram. Por ambas passa agora o medo., mas o medo, vêmo-lo nas ameaças desesperadas,  é agora deles. Agradeçamo-lo à coragem grega. O caminho é por aqui: democracia. Que perigo enorme.
(actualizado)

1 comentário:

FB Request disse...

Os ministros das finanças da zona euro exprimiram, esta segunda-feira, uma "vontade inabalável" de que a Grécia permaneça no euro, mas avisaram que, em contrapartida, Atenas terá de prosseguir as reformas acordadas em troca de uma ajuda de 240 mil milhões de euros. A linguagem é a do costume, a da chantagem, que tão bem tem resultado. Até agora.