terça-feira, 8 de maio de 2012

Fuga para a frente

Numa entrevista publicada nesta terça-feira pelo jornal i, Mário Soares aprova uma ruptura do PS com o caminho que tem sido seguido até aqui,. Condicionado pelo memorando de entendimento assinado com a troika, "o PS sentiu-se durante um tempo obrigado – e bem, porque foi Sócrates que assinou o primeiro acordo – a cumprir [o acordo com a troika]. Mas agora que já está toda a gente a falar noutra linguagem, porque é que o Partido Socialista deve continuar a ser fiel a esse acordo?", questiona agora o antigo líder socialista.
Foi ao som repetições desta súmula da entrevista de Mário Soares que hoje o país acordou. Já ontem, António José Seguro, o actual líder socialista, tinha vindo a terreiro expressar a mesma ideia de ruptura baseada na tal mudança de linguagem inspirada na eleição de Hollande. E, hoje, pela voz de Guilherme Silva, o PSD já fez saber que está disposto a ir ao encontro do PS para juntos chegarem a acordo sobre um texto comum de uma adenda ao tratado orçamental que PSD e CDS quiseram que Portugal fosse o primeiro a aprovar, que PS, imbuído do mesmo espírito pioneiro, apesar de se dizer contra, votou a favor e que os três partidos aprovaram sem discussão pública, apesar do espartilho que significa para todos os futuros Governos.
Por mais que me agrade, e agrada, a ideia de uma ruptura com a austeridade cega que está a liquidar o país, todo este espectáculo desperta-me a mais profunda repugnância. Então e se Sarkozy tivesse sido reeleito, haveria “ruptura”? Então e se Hollande faltar ao que prometeu em campanha, haverá “ruptura” com a “ruptura”? Ao que hoje assistimos é ao prolongamento do tudo que ficou para trás. Quando os nossos parceiros europeus quiseram, os três partidos aceitaram desmantelar o nosso tecido produtivo a troco dos milhões com que se abotoaram. Quando fecharam a torneira do dinheiro, aceitaram juntar-se novamente para espremer o povo que supostamente governam, a pretexto do enriquecimento acima das suas possibilidades cuja culpabilidade não lhes custou nada atribuir-lhe, rejeitando a auditoria que poria a nu todos os excessos de 25 anos de uma integração europeia ao serviço de enriquecimentos com as suas cores partidárias. Agora, a pretexto de uma mudança no discurso dominante, dezenas de milhar de encerramentos de empresas depois, centenas de milhar de desempregados depois, milhares de milhões do endividamento que assinaram de cruz depois, vem isto. Todos amiguinhos, o que lá vai, lá vai, aliviamos um bocadito a austeridade e  não se fala mais nisso. Não pode ser. Temos que conversar muito bem sobre o assunto. A irresponsabilidade têm que pagá-la politicamente. E tudo o que roubaram têm que restituí-lo e responder criminalmente pelo saque gigantesco da sua exclusiva responsabilidade.
Um dia, este é o seu maior temor,  tal como os gregos estão quase a conseguir , também nós os deixaremos sem o poder que obsta a esta responsabilização, um poder que, enquanto for seu, vão continuar a utilizar para evitá-la custe o que custar. É o que hoje os vemos fazer. Desesperadamente. Como sempre, mais pirueta, menos pirueta,Estão mais juntos do que nunca, agora numa fuga para a frente. Na crista da onda.

6 comentários:

FB Request disse...

Por mais que me agrade, e agrada, a ideia de uma ruptura com a austeridade cega que está a liquidar o país, todo este espectáculo desperta-me a mais profunda repugnância. Então e se Sarkozy tivesse sido reeleito, haveria “ruptura”? Então e se Hollande faltar ao que prometeu em campanha, haverá “ruptura” com a “ruptura”? Ao que hoje assistimos é ao prolongamento do tudo que ficou para trás.

Anónimo disse...

O PS vai mudar de discurso como reflexo dos recentes resultados eleitorais na europa. Já perceberam que alinhar com os partidos do governo só os vai fazer perder votos. É necessário mudar o discurso para captar o eleitorado, acompanhar as tendências da moda. Nada tem a ver com ideologias políticas ou com objectivos para o país. O discurso é sempre no sentido de conquistar votos que lhes permitam governar e fazer o assalto ao orçamento de estado, governarem-se. E acaba sempre por funcionar. Depois de lá estarem tratam dos negócios e vão dando o dito por não dito, tal como fará o senhor Hollande. Assim funcionam os partidos políticos. Dedicam-se aos negócios e procuram o lucro como qualquer burguês. Não se pode mudar a natureza humana e não se pode censurá-los. São matilhas à caça da presa. The world is a business Mr. Beale.

Filipe Tourais disse...

Permita-me a correcção, são assim ALGUNS partidos políticos. Aqueles que já o demonstraram. Quanto a todos os demais, qualquer extrapolação é uma mentira que necessita de comprovação para se tornar verdade. O que tem ajudado à perpetuação no poder dos partidos que refere serem iguais é a crença de que todos são assim misturada com a falta de coragem para mudar. É o que nos resta, comprovar que há partidos e partidos.

Fenix disse...

Será que algum dia teremos essa comprovação em Portugal?! O ano de 2011 foi o meu ano de desolação: em Janeiro porque a esquerda pulverizou o eleitorado com vários candidatos a PR, e não queria acreditar quando reelegeram a múmia. Depois em Junho, apesar do glorioso 12 de Março e das primaveras árabes, eis que o sagaz eleitorado, metade fica em casa e os outros conseguem eleger mais do mesmo. Não há pachorra, creio que vou morrer sem saber como seria ser governado pela verdadeira esquerda em Portugal!

Margarida Alegria disse...

Belo post!
Subscrevo na totalidade!
A todos estes senhores não falta é descaramento...
Já poucos parecem ter ideias próprias. E mais uma vez lá continuaremos a ser desgovernados de acordo com os caprichos externos e as gulodices internas.

Anónimo disse...

Penso que dizer que "somos governados" é uma expressão enganadora. Na realidade não somos governados, somos geridos e explorados. Temos proprietários, como o gado numa quinta. Os nossos proprietários deixam-nos escolher quem nos "governa", para vivermos na ilusão que somos donos do nosso destino. Mas na realidade os que escolhemos para nos representar são capachos dos nossos proprietários. Tudo está na mão dos nossos proprietários, a governação, a justiça, a comunicação social, etc. Os nossos proprietários bombardeiam-nos com ruído e desinformação para que não possamos desenvolver raciocínios críticos com base em informações fidedignas. Viram-nos uns contra os outros e deixam-nos escolher entre capachos que fazem o papel do polícia bom e do polícia mau alternadamente. Quando saltam da oposição para o governo e vice-versa, os papeis e discursos são trocados. Dividir para reinar continua a dar frutos... e rendas.