terça-feira, 17 de abril de 2012

Um pecado pouco original

O Serviço Nacional da Pastoral do Ensino Superior, organismo da Igreja Católica, está preocupado com os efeitos da crise económica sobre os alunos universitários e enviou, por isso, uma carta ao secretário de Estado do Ensino Superior, João Queiró, na qual apela a “critérios de atribuição de bolsas mais justos”, por temer que o ensino superior fique “restrito às elites económicas”. E é um temor perfeitamente legítimo, do qual também partilho. Estranho é que o alerta venha de quem vem. A Universidade Católica Portuguesa, instituição elitista ao extremo pertencente ao mesmo grupo económico, recebe anualmente do Estado português subsídios em montante suficiente para financiar a acção social escolar, não apenas do ensino superior, de todos os graus de ensino. E se o património imobiliário do mesmo grupo, o maior proprietário do país, não estivesse isento de impostos e contribuísse tal como o fazem todos os demais, a receita obtida do levantamento deste privilégio injustificável não apenas seria suficiente para financiar a Educação em todos os graus de ensino, como ainda sobraria para aliviar dois ou três por cento à taxa máxima de IVA, que todos pagamos porque eles não pagam nada, e para que todos os bens e serviços, que deixaram de ser essenciais por decreto, voltassem a ser tributados à taxa reduzida. Obviamente que não é a sua obrigação de contribuir que a Igreja reclama. Isso parece estar fora de qualquer cogitação. O custo da sua intervenção social resume-se ao das folhas de papel que enviaram ao Governo. Os proveitos da expressão pública da sua preocupação capitalizam-nos no reconhecimento geral que gera os apoios que perpetuam o seu privilégio anacrónico. Isto tem um nome. E atenção: o tema deste texto não é religião. 

1 comentário:

FB request disse...

O Serviço Nacional da Pastoral do Ensino Superior, organismo da Igreja Católica, está preocupado com os efeitos da crise económica sobre os alunos universitários e enviou, por isso, uma carta ao secretário de Estado do Ensino Superior, João Queiró, na qual apela a “critérios de atribuição de bolsas mais justos”, por temer que o ensino superior fique “restrito às elites económicas”. E é um temor perfeitamente legítimo, do qual também partilho. Estranho é que o alerta venha de quem vem. A Universidade Católica Portuguesa, pertencente ao mesmo grupo económico, recebe anualmente do Estado português subsídios em montante suficiente para financiar a acção social escolar, não apenas do ensino superior, de todos os graus de ensino. E se o património imobiliário do mesmo grupo, o maior proprietário do país, não estivesse isento de impostos e contribuísse tal como o fazem todos os demais, a receita obtida do levantamento deste privilégio injustificável não apenas seria suficiente para financiar a Educação em todos os graus de ensino, como ainda sobraria para aliviar dois ou três por cento à taxa máxima de IVA, que todos pagamos porque eles não pagam nada, e para que todos os bens e serviços, que deixaram de ser essenciais por decreto, voltassem a ser tributados à taxa reduzida. Obviamente que não é a sua obrigação de contribuir que a Igreja reclama. Isso parece estar fora de qualquer cogitação. O custo da sua intervenção social resume-se ao das folhas de papel que enviaram ao Governo. Os proveitos da expressão pública da sua preocupação capitalizam-nos no reconhecimento geral que gera os apoios que perpetuam o seu privilégio anacrónico. Isto tem um nome. E todos sabemos qual é.