segunda-feira, 23 de abril de 2012

Merkozy ou Merkande, eis a questão

Seguramente, não estarei entre os mais entusiasmados com o resultado da primeira volta das presidenciais francesas de ontem. Foi a primeira vez que um Presidente que se recandidata ao cargo não consegue vencer as eleições à primeira volta desde o início da Quinta República Francesa, em 1958, e tudo aponta para que Nicolas Sarkozy seja também o segundo a não ser reeleito. Mas, medido em mudança, pouco mais será do que isso.
Todos sabemos a que espécie de esquerda pertence François Hollande, a uma esquerda que prefere ceder a romper, a uma esquerda que mais facilmente se rende a consensos que a tornam uma variante um pouco aligeirada da direita assumida do que leva até ao fim as promessas eleitorais e se concentra num projecto próprio, verdadeiramente de esquerda. A esquerda de Hollande não é aquela esquerda de palavra. A minha. Até 6 de Maio, assistiremos à repetição de promessas como o reforço da tributação das grandes fortunas, já uma realidade em França que é uma utopia em países mais ricos como Portugal, e a renegociação do tal tratado orçamental da “regra de ouro”, que a mesma “esquerda” ajudou a aprovar apressadamente e sem discussão pública entre nós. Nada mais natural. François Hollande sabe que o seu eleitorado está mais à esquerda do que está o PCF, tal como Sarkozy sabe que o eleitorado que eventualmente poderia evitar-lhe a derrota pisa os terrenos dos ideais da extrema-direita. Ambos farão o mesmo: durante a campanha da segunda volta, cada um adaptará o discurso ao gosto destes eleitorados.
Porém, depois de 6 de Maio, é mais do que provável que o consenso liberal liderado por Merkel regresse em força. Merkande não será suficientemente diferente de Merkozy, mas, ainda assim, será diferente. Por isso, agrada-me bastante mais uma vitória de Hollande do que me agradaria ver Sarkozy reeleito. Contudo, mudanças, mudanças, a existirem, só as vejo lá mais para o ano, quando houver eleições na Alemanha e dependendo do seu resultado. Ou caso entretanto a UE permita que a Espanha seja empurrada para debaixo dos pés do FMI.

1 comentário:

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Todos sabemos a que espécie de esquerda pertence François Hollande, a uma esquerda que prefere ceder a romper, a uma esquerda que mais facilmente se rende a consensos que a tornam uma variante um pouco aligeirada da direita assumida do que leva até ao fim as promessas eleitorais e se concentra num projecto próprio, verdadeiramente de esquerda. Até 6 de Maio, assistiremos à repetição de promessas como o reforço da tributação das grandes fortunas, já uma realidade em França que é uma utopia em países mais ricos como Portugal, e a renegociação do tal tratado orçamental da “regra de ouro”, que a mesma “esquerda” ajudou a aprovar apressadamente entre nós. Nada mais natural. François Hollande sabe que o seu eleitorado está mais à esquerda do que está o PCF, tal como Sarkozy sabe que o eleitorado que eventualmente poderia evitar-lhe a derrota pisa os terrenos dos ideais da extrema-direita. Ambos farão o mesmo, durante a campanha da segunda volta, cada um adaptará o discurso ao gosto destes eleitorados.