quarta-feira, 4 de abril de 2012

Comprar "português"


A crise que vivemos ajudou a fortalecer a fantasia idiota de que, cada um por si, através de pequenas ideias e iniciativas avulsas, os portugueses podem ajudar a ultrapassar as dificuldades. E digo idiota porque o fortalecimento desta ideia enfraquece a percepção de que a solução do beco sem saída em que nos encontramos, a existir algum dia, será forçosamente política, traduzida numa mudança de regime. Obviamente que haverá quem o negue. O regime soube produzir condicionamentos, como é o caso do monopólio do voto nos três partidos que o protagonizam, fora dos quais o poder faria com que o sol deixasse de nascer todos os dias e as plantas crescessem para debaixo da terra, e como é o caso do abstencionismo que coadjuva o primeiro no objectivo plenamente conseguido até agora da perpetuação no poder dos três partidos que o garantem, e que mais não é do que a outra face da mesma moeda da mesma alergia à mudança, do mesmo condicionamento perpetuador de um regime que sabe defender-se. No vídeo desmonta-se uma dessas ideias, a do “comprar português”. Nele desfilam alguns dos nomes das empresas do nosso regime rentista. Não inclui nem o sector financeiro, outro sector para o qual todos trabalhamos, nem o oligopsónio do retalho, essa concentração do poder de impor preços, condições e prazos de pagamento a quem produz realmente português, que actualmente é detido por não mais do que meia dúzia de cadeias de hipermercados. Infelizmente, nada disto mudará sem intervenção política, uma intervenção política apenas possível com o poder a mudar de mãos e absolutamente improvável se depender da auto-regeneração do regime, outra ideia idiota que o próprio anda a semear nas mentes mais permeáveis ao seu condicionamento.
E então, vamos comprar estrangeiro, é? Evidentemente que não é isso que aqui se defende. Lamento decepcionar aqueles patrioteiros mais afoitos que também sei que não se deixarão convencer de que andam apenas entretidos com o que lhes é oferecido como caminho para uma saída que não se pretende seja encontrada. Tudo está bem como está para quem tem também o poder de condicionar tais passatempos. Deixem-se estar. Gastar argumentos com quem não está disposto a considerá-los produz os mesmos efeitos que a igualmente árdua tarefa de compensar o livre comércio internacional, dogma do regime, com o proteccionismo patriótico das suas boas vontades. Um dia, quando os nossos salários e os nossos direitos forem suficientemente diminuídos de forma a compensarem a energia, os combustíveis e as portagens mais caras da Europa, havemos de ser competitivos quanto baste para pôr os outros a consumir o que nós já não conseguirmos comprar. Os outros a comprar português sem beliscar o modo de vida dos rendeiros do país. Contas públicas em ordem, contas externas equilibradas e o povo a passar mal. Estupendo.

  • Vagamente relacionado: A Camargo Corrêa lançou uma OPA à Cimpor, o Governo impôs à CGD que venda a parte que detém da cimenteira (9,6%) à empresa brasileira, apesar do valor baixo da oferta. Simultaneamente, o grupo José de Mello e o fundo Arcus lançaram uma OPA à Brisa, que será financiada pela CGD, que não tem dinheiro para fornecer liquidez ao sector produtivo mas tem-no para financiar operações financeiras. A economia está estrangulada, mas a preocupação do Governo é com o apoio aos grandes grupos privados (ler mais).

(editado)

3 comentários:

maria madeira disse...

Obrigada pelo vídeo e pelos respectivos esclarecimentos, senti-me completamente ignorante, para não dizer burra.

Joaquim Ferreira disse...

Só tenha pena que aqui mais uma vez e á boa maneira portuguesa só se apresentem as empresas que foram vendidas internacionalmente e não se faça pelo lado positivo uma exposição de empresas que são 100% portuguesas e que produzem e vendem produtos 100% portugueses. Este é um exemplo tipico da chico esperteza portuguesa que ajuda a destruir e nada de construtivo apresenta. Lamento que quem elabora estes videos e também quem os publicita não tenha capacidade de raciocinio para colocar toda a verdade em cima da mesa mas prefira mostrar somente a parte negativa

Filipe Tourais disse...

Joaquim Ferreira, veja o vídeo e leia o texto mais duas, mais três, mais as vezes que forem precisas até entender o que aqui se diz. Boa sorte.